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Diálogo direto com correntes do pensamento
Luciano
Trigo
Cartas, de Jacob Burckhardt. Tradução de Renato
Rezende
Jacob
Burckhardt fez do indivíduo o centro de suas investigações
históricas: para ele, grandes personalidades podem alterar
o rumo de épocas inteiras. Ao mesmo tempo ele acreditava,
com pessimismo, que as culturas amadurecem e entram
em decadência, como tudo na natureza. Daí sua descrença
no progresso histórico e sua rejeição ao sistema hegeliano,
segundo o qual a História expressa a realização de um
espírito absoluto. Para Burckhardt (1818-1897), a beleza
e a liberdade seriam os dois valores fundamentais da
existência humana, e quase todos os seus textos são
pautados pelo projeto de estabelecer um vínculo entre
eles.
Tanto
nos escritos teóricos sobre a História da Arte, disciplina
que ajudou a fundar, como nas cartas que escreveu ao
longo de quase 60 anos, Burckhardt demonstra uma impressionante
coerência. Conservador, ele era cético em relação aos
grandes fenômenos sociais de seu século, como a democracia
de massa e o igualitarismo. Sua abordagem da cultura
é reflexiva, nada sistemática ou dogmática. Por tudo
isso, suas “Cartas” são extremamente importantes, já
que contêm observações reveladoras sobre suas pesquisas
a propósito da Antigüidade grega e do Renascimento italiano.
É
também na sua correspondência que Burckhardt explicita
o seu temor diante do destino da Europa, que optara
por uma visão puramente racionalista e materialista
do mundo, a partir da Revolução Francesa. Nas suas cartas,
escritas entre 1838 e 1897, mais que nas suas conferências
ou nas suas obras de maior vulto, Burckhardt dialoga
diretamente com as correntes do pensamento político
e social da Europa de seu tempo.
Burckhardt
atacou a crescente demagogia da política e a ação desumanizadora
do capitalismo industrial de larga escala. Sua defesa
do pluralismo tinha um sentido estético, já que ele
via beleza na diversidade e na liberdade, filiando-se
à tradição de liberalismo aristocrático de Edmund Burke,
Alexis de Tocqueville e José Ortega y Gasset. Mas muitas
de suas convicções são hoje condenáveis: ele se opunha
ao sufrágio universal, à moderna educação pública e
à instrução das mulheres, e não se preocupava em buscar
soluções para os maciços problemas sociais de seu tempo.
Caderno
Prosa & Verso
O GLOBO
Rio de Janeiro
01/11/2003
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