Fogo brando
das paixões que ruíram
Barreado, de Fernanda Gentil. Editora Topbooks, 122 páginas.
R$ 19 André
Luis Mansur
Um casal jovem em crise, sem diálogo e sem nada a perder. É assim
que começa o primeiro romance de Fernanda Gentil, jovem autora que já
havia lançado o livro de contos Língua de trapos,
em 1999, pela mesma Topbooks, e que agora revela fôlego para uma
história mais longa, cheia de sutilezas e tons intimistas, "uma grata
surpresa", na definição de Moacyr Scliar. A
narrativa justifica o título. Barreado é um prato típico
do litoral do Paraná, uma "carne cozida em fogo brando, durante muitas
horas, em panela de barro tampada, fechada", segundo o Novo Dicionário
Aurélio. Da mesma forma, a autora não tem pressa nenhuma em desenvolver
seu enredo, que prossegue com a tentativa de Lucas, o marido do casal em crise,
de salvar seu casamento e dar um rumo à própria vida, levando a
mulher, Maria, e a filha, Helena, numa viagem de volta à casa da família,
de onde saiu após a morte da mãe. "Voltar é um verdadeiro
rito de passagem". O
reencontro de Lucas com o pai, Pedro, e o irmão, Mateus, todos nomes de
apóstolos de Cristo, não deixa de ser uma espécie de pedido
de perdão por ter abandonado a família em seu momento de maior dor.
"Mãe não pode morrer antes do tempo. A minha cometeu esse pecado".
Mas a volta de Lucas traz também o germe da discórdia. O pai, que
andava meio perdido, distante, reencontra sua felicidade com a volta do filho
e entra em perfeita harmonia com a nora e a neta. Mateus se sente desprestigiado.
E começa a cultivar um mundo à parte, feito de visões e memórias
daqueles que já se foram. "Eu, que sempre fui um mau aventureiro,
percorro o museu hermético do meu espírito". Este
quase monólogo interior de Mateus toma conta do livro da metade em diante,
com seu jeito excessivamente sério e pragmático, em contraste com
o irmão, menos preso às amarras da família e dos negócios.
Neste tumulto sem palavras, no resgate impossível da vida, Mateus, "que
nunca se atrasa, sistemático em quase tudo" e que dá beijos
de despedida protocolares na namorada, que ele só vê uma vez por
semana, "quando o cansaço permite", se pergunta: "Quando
vou me deixar em paz?" . É
uma história de muitas despedidas, poucos reencontros e algumas traições,
"ocupando cada espaço da pele, infiltrando-se sorrateira nos sentidos,
despedindo qualquer centelha de lucidez". São muitas perdas, tanto
aquelas mais concretas, como a da mãe, como as que não se percebem
de imediato, entre elas a dos ideais, perceptíveis apenas quando a família
desmorona e o tédio e a amargura tomam conta do casal. "O meu emprego
é uma droga, você está desempregada, perdemos o quê?". Fernanda
Gentil utiliza, no início do livro, a interessante técnica de colocar
os próprios personagens narrando os capítulos de suas vidas, até
juntá-los todos na mesma casa e na mesma linha narrativa. Assim, nos primeiros
capítulos, os personagens se definem, se apresentam ao leitor, com pormenores
biográficos e revelações íntimas. Na casa antiga da
família, cheia de reminiscências de uma infância de muitas
vozes, uma ponta de felicidade vai surgir, e também a esperança
de que as mágoas e os ressentimentos, os rostos virados na hora do beijo
de boa-noite, as recriminações por não se preocupar com a
filha doente, a falta de sexo, tudo fique de lado diante dos novos ares. Mas
a autora deixa claro que, mesmo sendo feita aparentemente de coisas simples, a
vida não é tão simples assim. E tudo vai desmoronando de
novo, aos poucos, como a tinta das paredes de uma casa velha, mostrando que reviver,
ou reinventar, o passado traz apenas uma satisfação passageira para
as crises de relacionamento, tão passageira como a satisfação
que Lucas consegue em ônibus lotados, voltando do trabalho, e que nem de
longe sente com Maria.
Caderno
Prosa & Verso O GLOBO Rio de Janeiro 07/08/2004 |