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Publicado na capa do Segundo Caderno de O Globo
em 7.12.2009.
Cordialmente,
Arthur Rimbaud
Primeira
edição brasileira com as cartas do poeta
mostra uma vida partida em duas, entre o gênio
precoce e a existência errante na África
Miguel
Conde

Autorretrato na varanda de casa,
no Harar (1883)Num
dia de julho de 1873, o poeta Paul Verlaine andava pelas
ruas de Londres levando uma rara provisão de
comida e a dose costumeira de bebida para a casa onde
vivia com Arthur Rimbaud, o jovem talentoso por quem
há pouco mais de um ano abandonara a mulher,
o filho, o emprego, e de modo geral todos os compromissos
que até então fazi-am dele um integrante
respeitável da sociedade parisiense. Ao se aproximar
do número 8 da Great College Street, porém,
ouviu o grito sarcástico do amante: "Que
ar de babaca, com esse arenque e a garrafa na mão!".
Seria apenas uma provocação infantil,
não fossem as incontáveis punhaladas (metafóri-cas
e literais) já trocadas pelos dois escritores
em sua rotina de brigas, bebedeiras e pe-núria.
Decidido a encerrar o relacionamento que descreveu como
"um amor de tigres", Verlaine embarcou para
a Antuérpia. Abandonado, Rimbaud escreveu ao
amante uma carta derramada: "Volte, volte, querido
amigo, único amigo, volte. Juro que serei bom.
Se fui mordaz com você, foi só por besteira
e teimosia, arrependo-me mais do que se possa dizer".
Verlaine tinha motivos para duvidar. Longe de ser uma
besteira ocasional, a mordacidade era um hábito
cultivado com prazer pelo remetente, como se pode ver
no recém-lançado Arthur Rimbaud:
Correspondência (Topbooks, 476 páginas,
R$ 59).
Primeira edição brasileira a reunir todas
as cartas conhecidas de Rimbaud, o livro traz escritos
que vão da adolescência aos últimos
dias do poeta, expondo uma vida intensa e atribulada,
partida em duas metades: a do jovem brilhante, talentoso
e impertinente que entremeava maledicências e
trocadilhos escatológicos com poemas hoje contados
entre os maiores da literatura moderna; e a do comerciante
objetivo que relatava em tom só-brio suas expedições
pela África, onde tentava juntar dinheiro para
um dia viver de ren-da, sem trabalhar.
Cartas
queimadas pela mulher de Verlaine
Tradução, notas e comentários são
do poeta Ivo Barroso, um rimbaudiano devotado que conclui
assim o trabalho de verter para o português as
obras completas de Rimbaud, formadas ainda pelos volumes
"Poesia completa" e "Prosa poética"
lançados também pela Topbooks. Encerrado
o trabalho, iniciado em 1972 com a tradução
de "Uma estadia no inferno", Barroso vai doar
sua biblioteca de e sobre o poeta para o Centro Cultural
Banco do Brasil.

Rimbaud sonhando em se engajar nas tropas carlistas,
desenho de Verlaine
– As cartas mostram que Rimbaud era de uma ironia
terrível. Era um cara insuportável, mas
um gênio indiscutível. Considero as "Iluminações"
o maior momento da poesia de todos os tempos. Minha
tese é que depois delas Rimbaud sentiu que não
havia nada mais a fazer. Ele era incapaz de se repetir,
evoluía a cada poema – diz.
As notas contextualizam as cartas e acabam compondo
um breve perfil biográfico do escritor. Algumas
poucas cartas escritas por Verlaine, pela mãe
e pela irmã de Rimbaud também foram incluídas,
assim como os depoimentos de Rimbaud e Verlaine à
polícia sobre o episódio em que o primeiro
foi baleado pelo segundo.
No conjunto da correspondência, o relacionamento
dos dois aparece de forma breve, já que a mulher
de Verlaine, Mathilde, destruiu todas as cartas enviadas
a seu marido pelo amante. Quando a irmã de Rimbaud
as solicitou, Mathilde respondeu: "As cartas dirigi-das
a Verlaine por seu irmão Rimbaud em nada poderiam
servir à glória desse último. Se
sua família e seus amigos as tivessem lido, como
eu e meu pai, decerto me seriam gratos por havê-las
destruído".
Um fragmento de uma carta enviada por Rimbaud queixando-se
da modorra em Charle-ville, sua provinciana cidade natal,
da qual fugia sempre que possível, dá
uma ideia do tom da correspondência: "O trabalho
está maisa está de meu olho. Merda para
mim! Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim?
Merda para mim! Merda para mim! Merda para mim! Merda
para mim!". longe de mim do que minha unh
Teoria do poeta vidente, que cria sua linguagem
É em suas primeiras cartas, enviadas a poetas
menores com cuja ajuda Rimbaud contava para ter suas
obras publicadas, que o jovem escritor discorre sobre
sua busca por uma poesia nova. A mais famosa é
a enviada a Paul Demeny em maio de 1871, que começa
com o aviso imperativo "Resolvi proporcionar-lhe
uma hora de literatura nova", e pros-segue com
a famosa teoria de Rimbaud do poeta como vidente, que
por meio do "desre-gramento de todos os sentidos"
"alcança o insabido" e deve inventar
uma linguagem para dizê-lo: "A Poesia não
marcará mais o ritmo da ação; ela
estará na frente".
Apenas quatro anos depois, aos 21 de idade, Rimbaud
deixaria de lado essas ambições para iniciar
uma segunda vida e uma série de viagens que o
levariam por fim à África. A vida errante
e o trabalho em condições "miseráveis",
como diria mais de uma vez, lhe pareciam melhores do
que a permanência na França: "É
evidente que não vim aqui para ser feliz. E todavia
não posso abandonar essas regiões, agora
que já sou conhecido e posso encontrar meios
de viver — ao passo que em outra parte eu apenas
morreria de fome".
Os pedidos por livros são frequentes, mas tudo
que o comerciante procura agora são manuais práticos
de construção, geologia, mapas. O talento
descritivo e o humor negro ainda aparecem no entanto
em várias cartas, como aquela em que Rimbaud
descreve à mãe e à irmã
sua adaptação às muletas, após
ter a perna amputada devido ao câncer nos ossos
que terminaria por matá-lo. A doença o
levaria afinal de volta à França, de onde
saíra para ganhar a vida, e para onde retornou
em busca de cura.
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