| Publicado
no caderno "Prosa & Verso" de O Globo,
10 de março de 2007
Metáforas
precisas e transgressivas
Praia
provisória, de Adriano Espínola.
Editora Topbooks, 116 páginas, R$ 28
Cyana Leahy
Nada
acontece se não lermos poesia, mas se o fizermos,
muito pode acontecer. A inutilidade da poesia é
sua força. Sem aplicação direta
e imediata, ela move montanhas, sentidos, percepções,
exercícios de vida, problematizando a imaginação.
O poema é um ritual de intensidade emocional;
para decifrar o enigma, é preciso entender seu
desenho verbal. É preciso ler, de fato, cada
poema, como se fosse o único. E o reler, de preferência
em voz alta, para perceber os efeitos sensoriais, como
nos poemas de Praia provisória,
de Adriano Espínola.
“Chove.
As mesmas chuvas/ do instante caem adiante/ aos pés
de outras uvas./ O agora chega molhado./ As passas vêm
do passado”. Ver, ouvir, saborear os gostos e
os perfumes da chuva. O sensorial tem sua própria
memória e conduz a emoção. Depois,
ao passar para o poema na página seguinte, tentar
estabelecer um diálogo com o anterior. “À
noite, os mortos são navegantes velozes./ Vão
ao vento, no mar singrando as próprias vozes”.
Nada de perguntar o que o autor quis dizer com isso,
que é pergunta mais esotérica que literária.
Faz-se a pergunta à palavra, instrumento artístico,
que traz a linguagem e seus efeitos para o primeiro
plano.
Ler
Praia provisória faz pensar
na palavra, na arte, no contexto, elementos que compõem
o triângulo interdisciplinar da educação
pela literatura, e que são construções
de profundo efeito transformador. Ali está o
habitus do poeta, suas leituras, influências e
marcas fundamentais. Ao mesmo tempo, ele usa tempo e
espaço para provocar desconforto, desacomodar
interesses, saberes e sentidos, como bom educador. Da
poesia social ou participativa produzida nos anos 1980
(Fala, favela) à urbanidade
explícita das esquinas da imaginação
e da memória na poesia dos anos 1990 (Táxi
e Metrô), Espínola chega à
palavra justa, breve, precisa. Mais livre, pois pensada
com régua, compasso e dicionário, caleidoscópio
de fragmentos coerentes de vida e de sentidos.
Se
já havia beleza plástica, sensorial, em
Lote clandestino, o poeta agora arrisca
mais, brinca com o idioma e com a forma, constrói
metáforas concentradas e transgressivas com as
quais tenta ‘dizimar seus exércitos’.
Aprimora a construção ritmo-espaço,
cuja matriz está na formação concretista,
na Fortaleza natal dos anos 1960. Rota natural: o artífice
busca a contenção e a síntese que
sucedem a análise.
Poesia
concreta, homenagem a Shakespeare (em inglês),
cantiga d’amor medieval são algumas das
surpresas encontradas nos cinco tempos / temas que organizam
a obra: “Maramar”, “O sol desnudo”,
“Os hóspedes”, “Os navegantes
velozes”, “Armadilha para Orfeu”.
Homenagens, inspiração, desejos, confissões.
Simetria, clareza e equilíbrio clássicos
revelam as referências e ascendências inspiradoras,
reconstruídas em exercício responsável
e exaustivo, na poesia atual de Espínola. Como
em “Ulisses”: “A minha pátria
é o agora./ A ela retorno como outrora”.
O produto desse exercício é o verso estrangeiro
e familiar, que compartilha com leitores o olho e o
ouvido do poeta, sua identidade.
Voltemos
ao poema. Olhar, ouvir, sentir, para só então
entender, em um processo de análise e síntese
entre versos, poemas, livros. O exercício de
leitura acontece pelo diálogo entre as palavras
do poeta e nossas palavras, entre seus e nossos sentidos,
emoções, pensamentos. O indispensável
diálogo entre mim e o Outro. Para refletir sobre
a palavra, a arte e o contexto dessa praia provisória.
Nota: Todos os livros do poeta acima citados foram editados
pela Topbooks
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