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Trilhas
sutis do universal
Dioniso crucificado, de Per Johns / Editora Topbooks,
417 páginas, R$ 43
Alberto
Mussa
Talvez não exista maneira melhor de compreender
e interpretar um escritor que ir desvendando o seu cânone
pessoal, as obras que compõem seu sistema de
referências. Digo isso a propósito de um
livro - "Dioniso crucificado", recolha de
ensaios de Per Johns, autor do conhecido romance "As
aves de Cassandra", premiado com o Jabuti em 1991,
e dono de um círculo restrito mas muito entusiasmado
de admiradores.
"Dioniso crucificado" é a reunião
de versões novas de textos já publicados
que tratam essencialmente de literatura e filosofia.
É, declaradamente, de natureza impressionista
e traz reflexões sobre temas e obras que formam
sua família intelectual, sendo fácil reconhecer,
no tom desses ensaios, aquele dos romances. Apesar de
bem escritos, não são textos fáceis.
Particularmente porque o sistema de referências
de Per Johns, a que já aludi, inclui autores
e títulos nem sempre muito lidos. É necessário,
assim, ter certa familiaridade com uma cultura já
clássica, particularmente filosófica,
cada vez mais rara no leitor brasileiro.
Ensaios
formam blocos temáticos
Os ensaios estão ordenados de maneira a formarem
blocos temáticos. O primeiro deles consiste em
estudos filosóficos, incluindo textos sobre o
filósofo brasileiro Vicente Ferreira da Silva
(cujo título dá nome à coletânea),
sobre a poetisa Dora Ferreira da Silva (posto neste
lugar pelo vínculo temático com o texto
precedente), sobre o mitólogo romeno Mircea Eliade
e sobre o filósofo francês Gaston Bachelard,
além de um importante estudo intitulado "Prometeu
no Jardim do Éden".
Este estudo, o primeiro do conjunto, é uma reflexão
sobre a natureza dos mitos e encerra a grande chave
para a compreensão do pensamento de Per Johns
ou, mais propriamente, do sentimento que guia suas impressões
ao longo do livro. A idéia básica é
a de que os mitos propõem uma maneira de compreensão
totalizante dos fenômenos, porque esta se dá
pela experimentação, pela vivência
- e não pelo processo lógico, que pressupõe
a análise, ou seja, o desmantelamento do todo
para percepção da parte. Nesse sentido,
o processo civilizador, fundado no logos, representa
a destruição dessa capacidade humana de
se integrar no todo natural. E o mito de Prometeu, como
o do Pecado Original, simbolizariam essa perda.
O segundo bloco abre com o ensaio "A pátria
de Hamlet", que trata da "alma" escandinava,
seguido de textos sobre escritores da Suécia
e da Dinamarca: Jacobsen, Henrik Stangerup, Isak Dinensen,
Selma Lagerlöf, Ingmar Bergman e Stig Dagerman.
Como está em "A pátria de Hamlet",
Per Johns considera traços característicos
da literatura escandinava a existência de um mistério
(não no sentido policial, é óbvio)
e de uma aventura empreendida em sua direção
- que é, em suma, aquele mesmo processo de experiência
totalizante do conhecimento mítico. A personalidade
literária que melhor definiria esse espírito
é a de Hans Christian Andersen, cujos romances
nunca superaram sua obra de fabulista. Aliás,
embora Andersen não tenha um texto dedicado só
para si, é uma referência constante nas
reflexões de Johns.
Rainer
Maria Rilke, Stefan Zweig e Thomas Eliot
O terceiro bloco reúne estudos sobre três
autores estrangeiros não-escandinavos: Rainer
Maria Rilke, Stefan Zweig e Thomas Eliot. Após
esse conjunto, há o ensaio "Viagem à
volta de si mesma", que me pareceu, ao lado do
texto inicial, o mais interessante. Nele, Per Johns
discute um famoso incidente da história naval
britânica: o motim ocorrido no Bounty, em 1789,
liderado pelo imediato Fletcher Christian contra os
excessos do capitão William Bligh.
O que interessou Johns não foi exatamente o motim,
mas a fuga de um grupo de amotinados para Pitcairn,
uma ilha do Pacífico cuja localização
precisa não constava dos mapas náuticos
de então. Esses amotinados, com suas mulheres
taitianas, tendo descoberto o prazer de uma vida livre
e em comunhão com a natureza, optaram conscientemente
por fugir à civilização, simbolizada
pelo capitão Bligh, preferindo o mito ao logos.
O último bloco trata da literatura brasileira.
São seis ensaios: "Regionalismo revisitado:
trilhas e veredas" (que contrapõe os experimentos
lingüísticos de Mário de Andrade
e Guimarães Rosa), "Viagem alma adentro"
(sobre a "alma" brasileira contida na obra
dos poetas Manuel Bandeira, Cecília Meireles,
Jorge de Lima, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt,
Joaquim Cardozo e Dante Milano), "Dédalo
de arcaicas escrituras" (sobre a poesia de Ivan
Junqueira), "O irmão deserto de Marco Lucchesi"
(autor com quem Per Johns compartilha a erudição
lingüística, literária e filosófica),
"Ficção de assombro e outras magias"
(que trata de Cornélio Pena, Lúcio Cardoso
e Clarice Lispector) e "Realismo fantástico
e floração ecológica" (um
balanço abrangente e original sobre nossa literatura
fantástica).
Reflexão
sobre a dicotomia Ficção x História
É,
no conjunto, uma literatura brasileira que não
privilegia o conteúdo "exótico",
tendo, por isso, uma aparência mais universal.
Per Johns se ressente dessa busca "superficial"
do exotismo, propondo que os elementos "exóticos"
que formaram a experiência brasileira em contraposição
à herança ocidental - por exemplo, as
manifestações religiosas indígenas
e africanas - sejam objeto daquele mesmo processo de
compreensão mítica, como definido no ensaio
"Prometeu no jardim do Éden".
Fecha o livro uma reflexão sobre a dicotomia
Ficção x História, que inclui observações
sobre o pensamento de Gilberto Freyre. Como se vê,
é uma vasta galeria. Um oportuno índice
onomástico, no fim do volume, dá uma idéia
de sua dimensão. E eu arriscaria dizer, com base
nesse mesmo índice, que é Guimarães
Rosa - e seu fazendeiro Cara de Bronze, que manda o
vaqueiro Grivo em busca do "quem das coisas"
- a grande chave para apreensão do pensamento
de Per Johns.
Alberto
Mussa é escritor, autor de "O enigma de
Qaf"
Caderno
Prosa & Verso
O GLOBO
Rio de Janeiro
10/09/2005
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