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Publicado
no caderno Prosa & Verso de O Globo, 17.02.2006
Presença de Carpeaux
Ensaios reunidos (1946-1971) - Volume 2, de Otto
Maria Carpeaux
Edição
de Christine Ajuz. Topbooks/Univercidade Editora, 942
páginas / R$ 93,90
Ronaldo
Conde Aguiar
Otto Maria Carpeaux costumava dizer que sua vida nada
tivera de especial. Assim não parece. Em 1938,
cinco dias após a anexação da Áustria
à Alemanha, ele e sua esposa, a cantora lírica
Helena, tiveram que empreender uma fuga arriscada pelos
cantões de uma Europa ameaçada pelo nazismo.
Levaram consigo apenas alguns livros raros e objetos
pessoais. O nome de Otto Karpfen (ele só afrancesaria
o nome no Brasil), filho de judeu e mãe católica,
constava de uma lista de antinazistas austríacos
que seriam presos e assassinados.
Carpeaux
refugiou-se, primeiro, na Antuérpia, onde encontrou
trabalho no "Gaset Van Antwerpen",
o maior jornal belga de língua holandesa. Em
1939, em face do avanço das tropas hitleristas,
Carpeaux abandonou a Bélgica e, na condição
de imigrante, veio para o Brasil. Durante a viagem,
de navio, a guerra estourou na Europa.
Garimpagem
de textos em arquivos precários
No
Brasil, o casal de imigrantes penou. Não tinham
amigos, não conheciam a língua, estavam
desempregados. Foram para o Paraná, mas preferiram
residir em São Paulo, onde sobreviveram vendendo
os livros e objetos que haviam trazido da Áustria.
Um dia, Carpeaux escreveu uma carta ao crítico
literário Álvaro Lins, que trabalhava
no "Correio da Manhã". Em resposta,
o autor de "Os mortos de sobrecasaca"
mostrou-se interessado em ajudar o austríaco.
Pediu-lhe que escrevesse um artigo para o jornal, tema
livre. Carpeaux preparou, então, um ensaio sobre
Kafka, o primeiro na imprensa brasileira sobre o autor
de O processo. A partir daí, Carpeaux
passou a escrever artigos semanais para o matutino carioca.
E não parou mais: até 1978, ano em que
faleceu, estima-se que Carpeaux tenha escrito, pelo
menos, dois mil ensaios, além de pequenos artigos
(muitos sem assinatura), livros (como os oito volumes
da "História da literatura ocidental")
e verbetes de enciclopédias.
Os livros e ensaios dispersos de Carpeaux estão
sendo reeditados agora, graças à parceria
Topbooks/UniverCidade Editora. Portentosa empreitada
editorial, o projeto vem exigindo um grande esforço
para ser levado adiante. "Ensaios reunidos:
1946-1971 - Volume II", recém-chegado
às livrarias, é exemplo disso: a jornalista
Christine Ajuz, responsável por sua organização,
foi obrigada a trabalhar dois anos, garimpando artigos
em arquivos precários, onde os jornais se encontravam
em estado lastimável, com folhas rasgadas, manchadas
e ilegíveis. Mas valeu a pena.
O pensamento e a imensa cultura de Carpeaux estão
por inteiro nas 942 páginas da coletânea
- tanto nos 205 ensaios como nos três prefácios
escritos para as obras de Bandeira (1946), Goethe (1948)
e Hemingway (1971). Tão importante quanto o primeiro,
de 1999, este segundo volume dos "Ensaios reunidos"
reafirma, sobretudo às novas gerações,
a dimensão da obra de Carpeaux, que durante décadas
influenciou o amadurecimento intelectual de gerações
de brasileiros.
A
obra de Carpeaux mereceria um estudo acurado, que procurasse
desvendar todas as suas nuances. Mesmo educado junto
aos culturalistas alemães e italianos do começo
do século passado, Carpeaux tinha consciência
de que nada se compreende fora da História. Isto,
porém, não o levava a supor que a cultura
e as artes fossem mero reflexo da História. Ele
não se deixava dominar por idéias preconcebidas,
nem por métodos reducionistas, que, a rigor,
conduzem o senso crítico a verdadeiros becos
sem saída. Carpeaux era, segundo Alfredo Bosi,
um leitor dialético, cuja obra era isenta de
generalizações, mas rica de comparações
parciais.
Os
"Ensaios reunidos" testemunham o pensamento
agudo de Carpeaux, que, a todo o momento, lançava
mão da psicanálise, da sociologia, da
filosofia, da economia política, da história
comparada, do marxismo, da teologia e da estilística,
de modo a inferir e iluminar os meandros do fato cultural
ou literário. Tal procedimento não constituía,
em si, um método, mas um duto através
do qual ele podia apreender a complexidade da vida social
e política na qual estavam inseridas as artes.
Os 205 ensaios da coletânea, que abrangem e discutem
um elenco enorme de autores, livros e assuntos, demonstram
perfeitamente como o olhar erudito de Carpeaux se propaga
em direção a outras áreas do conhecimento.
"A
arte não antecipa a vida, mas a vida realiza
a arte"
A
importância dos ensaios evidencia-se desde o primeiro
deles, "O testamento de Huizinga",
ao último, "Ernst Fischer e a sociologia
da música", no qual discute a tese de
antecipação da vida pela arte, concluindo:
"a arte não antecipa a vida, mas a vida
realiza a arte". São relevantes, ainda,
os ensaios que escreveu sobre "Graciliano e
seu intérprete", "Mário
de Andrade: escritor euro-americano" e o "Estilo
de Gilberto Freyre". Graciliano seria, na visão
de Carpeaux, um valor permanente, cujos romances revelavam
intensa dramaticidade. Mário de Andrade, a figura
mais complexa da história literária brasileira.
O estilo de Gilberto Freyre seria anti-retórico,
dispensando grandiloqüências: não
era um orador, mas um grande escritor.
Carpeaux
era um homem de luta, dotado de humor e alegria, do
dom da emoção e da fúria. Em 1964,
tornou-se opositor da ordem militar que tomou conta
do poder no Brasil. Quando a vida brasileira tornou-se
asfixiante, afastou-se do "círculo de amigos
da literatura" e passou a se dedicar à luta
contra a ditadura. Com isso, sacrificou a sua produção
intelectual, mas o que lhe importava na época
era lutar por valores como a liberdade e a justiça.
Ele, que sempre dera a todos nós uma aula de
erudição, nos deu, com tal atitude, uma
prova de grandeza moral. Era um grande homem.
RONALDO
CONDE AGUIAR é doutor em sociologia, professor
do Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB,
coordenador do Centro de Estudos em Cultura Brasileira,
do Centro Universitário Unieuro
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Sinopse
/ coluna de Daniel Piza
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