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Publicado em O Globo, caderno Prosa & Verso, 23/02/08.
O
INDOMÁVEL RIMBAUD
Edição
organizada por Ivo Barroso é referência
para estudos sobre o poeta
Marcelo
Jacques
“Eu
quis dizer o que isso diz, literalmente e em todos os
sentidos”, teria dito Arthur Rimbaud à
mãe em resposta a uma pergunta sobre a significação
das “pequenas histórias em prosa”
que constituem “Uma estadia no inferno”.
Se considerarmos que esse texto é, ao lado das
“Iluminações”, o grande legado
em prosa do jovem poeta das Ardenas, podemos ver na
afirmação, mais do que uma frase de efeito,
a síntese de uma poética que não
cessou de reclamar “invenções de
desconhecido”, e que, como disse Mallarmé,
“nenhuma circunstância literária
realmente preparou”.
“Uma
estadia no inferno” e “Iluminações”
fazem parte da Prosa poética de Rimbaud,
organizada por Ivo Barroso, cuja segunda edição
revista foi recentemente lançada pela Topbooks.
Se a primeira tradução de “Uma estadia
no inferno”, de 1972, já era a melhor versão
brasileira da obra, as sucessivas e cuidadosas revisões
realizadas, ao lado da tradução de “Iluminações”
e de outras prosas inéditas, acrescidas de um
trabalho minucioso de notas e comentários, fazem
definitivamente desta Prosa poética uma
edição de referência para os estudos
rimbaudianos em língua portuguesa.
Promessa
da poesia do futuro
Rimbaud invoca, de fato, desde as famosas “Cartas
do vidente”, essa virtualidade indomável
da língua como a promessa própria da poesia
do futuro, que a “hora nova” exigiria. Não
se trata, porém, de criar uma poesia pura, apartada
do todo da língua e da banalidade prosaica do
mundo, como quererão muitos “modernos”.
Trata-se, antes, como escreverá o adolescente
de 15 anos, de “encontrar uma língua”
que seja “da alma para a alma, resumindo tudo,
perfumes, sons, cores, pensamento agarrando pensamento
e puxando”, uma língua que permita “(definir)
a quantidade de desconhecido que desperta em seu tempo
na alma universal”.
E, para tornar-se esse “vidente”, Rimbaud
define desde então seu método: “um
longo, imenso e estudado desregramento de todos os sentidos”,
que implique a “eclosão” deste outro
que nele pensa - “Pois EU é um outro”
- para que ele possa então, a seu turno, alterar-se
e, assim, abrir outras perspectivas para o seu tempo:
“Que exploda em seu salto por entre as coisas
inauditas e inomináveis: outros horríveis
trabalhadores virão, e começarão
pelos horizontes em que o outro se perdeu!”. Com
Rimbaud, portanto, o vigor e a autenticidade da poesia
deixam definitivamente de confundir-se com qualquer
forma de espontaneidade expressiva do eu, que, ao contrário,
deve, por meio do “estudo” e do “cultivo”
de si, deformar: “trata-se de tornar a alma monstruosa”.
É
justamente esse “combate espiritual”, “tão
rude quanto a batalha dos homens”, que é
encenado em “Uma estadia no inferno”, único
livro efetivamente publicado por Rimbaud, e que não
pode deixar de ser lido ao mesmo tempo como uma narrativa
autobiográfica e como uma espécie de auto-reflexão
sobre a gênese da obra do próprio poeta
e suas ambições futuras. Composta logo
após o incidente dos dois tiros disparados por
Verlaine, em 1873, que marcaria a ruptura definitiva
entre os dois, essa “descida aos infernos”
foi freqüentemente considerada como uma espécie
de “Adeus” - título da última
seção do texto - à poesia: “Criei
todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas.
Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes,
novas línguas. Acreditei-me possuído de
poderes sobrenaturais. Pois bem! Devo enterrar minhas
imaginação e minhas lembranças!
Bela glória de artista e prosador que lá
se vai!”
Essa leitura foi facilitada pela fascinante história
do adolescente genial que abandonou a poesia aos 20
anos para viver como um “trabalhador” na
África durante 17 anos, até a morte, em
1891. Mas os estudos em torno da datação
das peças que vieram a constituir as “Iluminações”,
escritas em parte depois da redação da
“Estadia”, permitiram reler esse “Adeus”,
reensejando a perspectiva de renovação
da poesia nele também de certa forma reivindicado.
Leitor
confrontado com o enigma da língua
Não por acaso, desde a primeira edição,
organizada por Verlaine em 1886, as “Iluminações”
se iniciam com o poema “Depois do dilúvio”.
Mas aqui, ao contrário do que ocorre na “Estadia”,
o eu pouco se enuncia. Prevalecem imagens caracterizadas
pela justaposição de frases nominais,
entremeadas de enumerações feitas a partir
de associações sonoras e deslizamentos
semânticos, realização plena daquilo
que o jovem aspirante à vidência chamara
de “visão”. Diante dessa obra, confrontado
ao enigma da língua e de si, o leitor não
sai imune: “Este veneno permanecerá em
nossas veias mesmo quando acabar a fanfarra e voltarmos
à nossa antiga inarmonia”.
Marcelo
Jacques é professor de literatura francesa da
Faculdade de Letras da UFRJ
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