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Nabuco: entre a Monarquia e a República
Isabel Lustosa
Joaquim
Nabuco, um pensador do Império , de Ricardo Salles.
Editora Topbooks, 343 páginas. R$ 39
"Joaquim
Nabuco, um pensador do Império”, de Ricardo Salles,
é muito mais do que uma biografia intelectual. O esforço
do autor foi no sentido de produzir a análise mais profunda
e circunstanciada possível da obra de Nabuco, relacionando-a
com sua trajetória política. Ricardo Salles procurou
estabelecer as matrizes de cada uma das atitudes intelectuais
de seu biografado, identificando seu lugar no contexto
da história das idéias; a tradição a que cada uma delas
se filiava e as conseqüências da adesão de Nabuco a
elas para sua vida. Numa outra frente, Salles procurou
identificar seu papel na História do Brasil — de como
ele atuou nessa e como essa influiu sobre o seu destino
— e as influências dessas duas histórias, a do Brasil
e a do grande abolicionista, em sua obra. Tarefa árdua
que, para garantir o perfeito encadeamento dos assuntos,
fazendo com que eles dialoguem entre si e inserindo
nesse movimento eventuais discussões com autores que
já se debruçaram sobre o tema — dos quais o mais notável
é o historiador Evaldo Cabral de Mello — resultou em
um livro que exige atenção desdobrada do leitor.
Ricardo
constrói seu argumento apresentando inicialmente uma
panorâmica de como o tema da escravidão foi trabalhado
no desenvolvimento das idéias liberais no Ocidente entre
os séculos XVIII e XIX. Em seguida, apresenta a maneira
como essas idéias foram adaptadas pelas elites pensantes
brasileiras. Neste contexto, é que situará o pensamento
abolicionista de Nabuco. Para o autor, Joaquim Nabuco,
que começara sua militância abolicionista durante o
curso de Direito em São Paulo, radicalizou as propostas
daquele movimento ao incluir nelas a idéia de que a
Abolição só se completaria com a integração da população
escrava à nação, com a inclusão dessa na cidadania,
representada pela instrução. Ricardo ressalta no abolicionismo
de Nabuco, por um lado, a ausência de qualquer traço
de racismo e, por outro, sua adesão à Monarquia: sua
convicção de que a Abolição seria o coroamento da grande
obra da dinastia Bragança no Brasil.
Mas
a adesão dos ex-senhores de escravos à causa republicana,
logo após a Abolição, garantiu o sucesso da revolução
de 15 de novembro de 1889 e representou o encerramento
daquele projeto. Os anos que se seguiram à Proclamação
da República foram para Nabuco anos de exclusão. Preparado
que fora para seguir a trajetória do pai na vida pública
e estando profundamente ligado ao projeto monarquista,
viu-se subitamente fora de lugar. Durante dez anos se
manteria à margem da política.
Nabuco
não era um monarquista como os demais, pois o radicalismo
de suas posições no abolicionismo e o caráter conciliador
de sua visão da política o afastavam tanto dos monarquistas
quanto dos liberais do Império, aos quais estivera formalmente
ligado. Nunca fora um homem do partido, era um homem
do país. Acreditava que o Brasil tinha um papel importante
no contexto das nações americanas, sua Monarquia o ligava
à Europa e o aproximava da Inglaterra, a nação modelo
do liberalismo moderno. A Monarquia e sua estabilidade
preservavam a imagem do Brasil que assim evitava se
confundir com os demais países da América Latina, agitados
por sangrentas revoluções. Deste ponto de vista, a República
era um retrocesso.
Em
meio ao desencanto de que é tomado após a República,
Nabuco vive um período de profunda religiosidade. Suas
reflexões sobre a importância e o papel da fé refletem
também o impacto da grande desilusão política que vivera;
a decepção pessoal que associara a ela e a frustração
diante de um mundo que vira ruir e para o qual não via
remissão. O mergulho na fé foi fundamental para a volta
de Nabuco à vida pública, pois o fez repensar seu próprio
papel. Seria através da recuperação da memória do Império,
de seus grandes homens liderados por dom Pedro II, os
quais reuniria em “Um estadista do Império”, que encetaria
a volta ao cenário nacional.
A
biografia do pai foi o pretexto para Nabuco representar
o regime monarquista com as cores ideais. Nesse cenário,
dom Pedro II aparece como o líder iluminado e o centralismo
que marcara o seu reinado como a fórmula para impedir
a fragmentação do país. Para ele, a Monarquia fora o
lugar dos grandes homens, membros de uma elite fundamental
para a condução da política. A seu ver, o povo, estragado
pela escravidão, não estava preparado para o auto-governo.
Foi
após a publicação dessa obra e antes de publicar seu
livro de memórias, “Minha formação”, que a Monarquia
deixou de ser para Nabuco um projeto para se tornar
uma utopia cujos bons exemplos poderiam iluminar a República.
Conformar-se com a República levou-o a rever suas idéias
abolicionistas. Suas obras de memorialista, se não adotam
as teorias científicas do tempo, que afirmavam a inferioridade
natural do negro e do mestiço, já não advogam como imprescindível
para o sucesso de qualquer projeto político a integração
da população negra e ex-escrava ao corpo da nação.
O
foco havia mudado. A República ameaçava a integridade
da própria nação. E era a nação brasileira enquanto
unidade que precisava ser protegida e conservada. A
ameaça representada pelo expansionismo imperialista
dos EUA foi a causa da adesão de Nabuco ao serviço público
republicano na qualidade de diplomata. Atendendo ao
convite de outro monarquista que também resolvera servir
à República, Rio Branco, sua missão, daí em diante,
seria lutar pela preservação da soberania nacional.
Para
produzir esse retrato tão bem acabado de Joaquim Nabuco,
Ricardo Salles mergulhou fundo na mecânica de seu objeto,
desvendando suas contradições. O resultado desse belo
trabalho analítico é a imagem bem estabelecida de Nabuco,
de sua obra e de seu tempo.
Caderno
Prosa & Verso
O GLOBO
Rio de Janeiro
23/08/2003
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