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Veríssimo, o profeta
Affonso Romano de Sant'anna
De
repente você topa com essa frase escrita há cem anos:
“Eu creio que tempo virá em que se realize na terra
um tal estado de coisas que seja possível falar dos
Estados Unidos estendendo-se de pólo a pólo”. Repito,
a frase tem cem anos mesmo. E é de um americano John
Fiske no livro “American political ideas”. É espantosa,
arrogante e profética. Tão profética quanto o comentário
que o crítico e historiador de nossa literatura, José
Veríssimo, fez a respeito do tal “tempo” predito por
Fiskie. Acrescentou Veríssimo no ensaio intitulado “O
perigo americano”: “Eu por mim piamente acredito que
esses tempos não estão muito longe. Tudo na política
americana os anuncia” . E ele disse isto em 1906. E
a partir daí vai apontando como os ideais dos “pais
da República” americana foram traídos por sucessivas
guerras de conquista que passaram por Filipinas, Porto
Rico, Cuba e México. E , como se hoje estivesse mencionando
aos múltiplos ramos da CIA, diz que, já naquela época,
os americanos haviam introduzido “sobre e subrepticiamente
no seu regime político entidades novas que eles mesmo
nem sabem como qualificar e incorporar”. E já pessimista
adicionava: “Primeiro porão o resto do continente sob
a preponderância da sua força moral de ainda por muitos
anos a única real grande potência mundial da América,
depois sob a sua imediata dependência econômica, e finalmente
sob a sua plena hegemonia política. Desta, se transformar,
ao menos para alguns países, em suserania de fato e
até de direito não vai que um passo”.
Bush,
portanto, não nasceu hoje. Vem de longe.
Mas
as profecias de Veríssimo, registradas nesse oportuníssimo
“Homens e coisas estrangeiras-1899/1908”, que a Topbooks
editou este ano, não param aí. E seguem em outros campos
do conhecimento.
Qualquer
estudante de ciências humanas e sociais em nossos dias
ouve um professor alardear que “a metafísica morreu”.
Pois José Veríssimo há cem anos narrava o que ocorria
quando ele era jovem: “Os rapazes do meu tempo ouviram
anunciar com insolência das convicções mais de sentimento
que de razão, a morte da metafísica. Foi então muito
celebrado um deles que, com a petulância da idade e
do meio saber, da sua banca de examinando afirmara seguro
aos lentes pasmados que ‘a metafísica morreu!’”.
“Na
véspera, continua Veríssimo, havia aparecido aqui a
filosofia de Comte. E nos moços, que dela haviam ouvido
falar, não faltaram apodos ao velho professor carranca
que, com benigna e superior ironia, perguntara, entre
risonho e escarninho, ao jovem futuro doutor: ‘Quem
foi que a matou, foi o senhor?’”.
Eis
um livro agradável de se ler, o que é raro em livros
de ensaios, pois alguns ensaístas anunciam logo sua
superioridade sobre o leitor e metem-se a exibir acrobacias
mentais de pouca serventia na comunicação. Mas, entre
as coisas relevantes neste livro, está um verdadeiro
passeio por valores do século XIX. Nossa geração, aliás,
foi educada para adorar o século XX e detestar o século
anterior. Era a ideologia da ruptura. Só o novo contava.
E esse livro nos serve alguns pratos que tinham saído
do cardápio. E recuperamos, de repente, um certo sabor
que a cultura já teve.
Não
apenas por reencontrar Zola, Chateaubriand, Dumas, Victor
Hugo, Eça de Queirós ou rever Cervantes e Petrônio,
mas por redescobrir uma maneira pedagógica de ler e
comentar a cultura e reencontrar, pela visão de Veríssimo,
no século XIX, alguns pensadores utópicos, em contraposição
à nossa época em que a utopia foi negada pela pós-modernidade.
Entre
tantos, Tolstoi, Ruskin e Kropotkin fascinam Veríssimo
e terminam por fascinar o leitor. Eles faziam parte
de uma geração de intelectuais de origem nobre e rica,
que jogaram tudo para o alto e foram compartir a vida
e a riqueza com menos favorecidos. Foi o século XIX,
a esse respeito, um século revolucionário, conforme
lista do próprio Veríssimo: Saint Simon, Comte, Fourier,
Spencer, Marx, Le Play, Bakunin, Lasalle, Tolstoi, Nietzsche
e Ruskin são alguns deles.
Tolstoi,
por exemplo, “de grão senhor russo fez-se mujique, de
grande proprietário territorial fez-se proletário, de
fino fidalgo e cortesão fez-se povo, de artista delicado
fez-se grosseiro artesão, e rompendo com as concepções
do seu meio, com os costumes da sociedade, com os preconceitos
da sua casta, com as idéias, os princípios, a prática
da sua educação, pôs-se, por assim dizer, fora do seu
povo, da sua nação e das suas leis e hábitos, como um
bandido — um outlaw de nova espécie, que saísse da sociedade,
do Estado, da Igreja oficial para se consagrar, com
a abnegação de um santo e a coragem de um herói, ao
bem do homem e da Humanidade e dar às suas palavras
a sanção dos seus atos”.
Aprofundando
seus sentimentos humanistas, Tolstoi pôs-se a traduzir
do grego os Evangelhos e, como ação prática, doou a
renda das traduções de “Ressurreição” para que a comunidade
dos “dukhobors”, seita cristã que praticava a pureza
primitiva cristã, fosse viver em Chipre e no Canadá.
Igual
fascínio tem Veríssimo por John Ruskin, que aplicou
toda sua fortuna para disseminar o gosto estético e
o aprendizado da arte. “A arte”, dizia Ruskin, “não
é um divertimento, uma simples distração, a ministra
de sensibilidades mórbidas”. Autor de mais de 40 livros
de arte, começou aos 24, em 1843, com “Modern Painting”.
Riquíssimo, funda museus e escolas destinadas a operários,
dá aulas à noite para pobres, aplicando os cinco milhões
de libras “em favor da paz, do amor e da beleza”.
Kropotkin,
outro príncipe russo, larga tudo para se dedicar à educação
popular. Peculiar e fascinante clima de mudança social
na Rússia em que jovens das grandes cidades, sem propor
revolução, apenas movidos por um ideal, foram para aldeias
como médicos, ferreiros, cortadores de mato e “raparigas
criadas nas mais aristocráticas famílias corriam sem
vintém para São Petersburgo, Moscou e Kiev sequiosas
de aprender uma profissão que as libertasse do jugo
doméstico”.
Este
livro é, como lhes disse, uma inusitada viagem a uma
Humanidade que talvez não mais exista.
Caderno
Prosa & Verso
O GLOBO
Rio de Janeiro
23/11/2003
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