| Publicado
no caderno Prosa & Verso de O Globo, 30 de
novembro de 1996
Poeta
e fingidor atrás das grades
Daniela Name
Com
quem Bruno Tolentino vai brigar desta vez? Muitos podem
estar se fazendo esta pergunta agora, enquanto lêem
mais uma reportagem sobre o polêmico autor de
"As horas de Katharina". Faz sentido. Tolentino
se especializou em provocar debates inflamados nos jornais.
Já discutiu com Caetano Veloso, os irmãos
concretistas Haroldo e Augusto de Campos, o ensaísta
Antônio Paulo Graça e o poeta Ivan Junqueira.
Agora, aproveita o lançamento de um novo livro
para desenferrujar a metralhadora giratória.
Sentado
à mesa de um restaurante no Centro, Tolentino
reza para agradecer o peixe grelhado com batatas antes
de começar a falar sobre "A balada do cárcere",
livro de poemas que narra a sua experiência numa
penitenciária de Londres. O poeta foi preso em
1989, por porte de drogas, passou 22 meses detido e
acabou organizando um workshop de criação
poética para os outros presos - a maioria semi-analfabeta.
-
Foi nessa época que percebi que conseguia escrever
sem o auxílio da cocaína - conta Tolentino.
- Devo isso à cadeia. Achava que era a droga
que me inspirava, porque eu tinha que achar uma explicação
para tanta inspiração. Tive um longo envolvimento
com o "sublime pó" e ficava espantadíssimo
de escrever tão bem, mas depois vi que não
era a droga que tornava meus versos magníficos:
eles já eram muito bons mesmo.
O poeta diz que será compreendido pela próxima
geração. No almoço de duas horas,
o auto-elogio aumenta à medida que o peixe e
as batatas vão sumindo do prato. Tolentino não
parece se incomodar em ser mais conhecido pelo que fala
nos jornais do que pelo que escreve nos livros. Perguntado
se sua obra terá fôlego para continuar
sendo lida daqui a 100 anos, ele disse acreditar que
muito antes disso os leitores já terão
se rendido ao seu talento:
-
Fui bonito, rico, gostoso, inteligente e poliglota,
enfim, uma obra-prima - afirma. - A vaidade para mim
sempre foi uma coisa natural... Quando descobri que
eu também escrevia bem, me pareceu um pouquinho
demais, mas era verdade. Mas sempre fui mais orgulhoso
do que vaidoso. Sei que vai demorar muito menos que
100 anos para eu ser lido e aceito, isso já vai
se dar na próxima geração. Vão
entender que sou o Fernando Pessoa daqui, que eu trouxe
universalidade à nossa poesia.
Tolentino
se considera um oásis de talento no deserto da
poesia nacional. Acredita que as mulheres de sua geração
são muito melhores que os homens, e por isso
dedica "A balada do cárcere" a Orides
Fontela, Adélia Prado e Neide Archanjo. Ele diz
que o título de sua "balada" é
uma clara citação ao livro homônimo
de Oscar Wilde, embora acredite que seus versos são
menos pessoais que os do autor inglês.
-
Dou voz a um preso, Nick, que matou a mulher. Através
dele, falo da cadeia e da experiência com minha
própria mulher, de quem tinha me separado um
pouco antes. Enquanto escrevia, lembrava da imagem dela,
belíssima, me olhando através da janela
do trem. Oscar Wilde fala de si mesmo mais diretamente.
Também
garante que existem diferenças em relação
ao conteúdo homossexual do poema de Wilde. Acusado
por Antônio Paulo Graça de ter feito um
"opúsculo homossexual", Tolentino conta
que ficou isolado na cadeia, por isso não recebeu
nenhuma cantada:
-
O único contato que tinha com os outros era na
hora dos seminários de poesia. Mas lá
dá vontade de fazer muita coisa, ainda mais porque
minha sentença inicial era de 11 anos. Não
sei o que aconteceria se eu ficasse com um daqueles
homens na mesma cela. Meu poema tem um mesmo ponto de
partida que o de Oscar Wilde: um sujeito que matou a
mulher. Mas ele é muito mais pessoal do que eu,
embora eu use o poema para refletir sobre a relação
com minha mulher.
Elogiado
pelo poeta Ferreira Gullar, que assina a quarta capa
do livro, "A balada do cárcere" mistura
a realidade da cadeia com mitologia grega, e recebeu
o Prêmio Cruz e Sousa de 1996. Meio brincando,
meio falando a sério, Tolentino diz que irá
à Academia Brasileira de Letras perguntar se
vai receber o Prêmio Machado de Assis [o mais
importante da instituição] este ano ou
no ano que vem. Ele acredita que a crítica literária
brasileira vive um de seus piores momentos:
-
Não consigo achar nenhum crítico bom -
diz ele. - São todos uns canalhas, não
destaco ninguém, a não ser para o pelotão
de fuzilamento. São todos podres, todos vendidos.
Prestam mais atenção em Mano Caê
e nos Chico-chicos-no-fubá da vida do que nos
verdadeiros poetas. Há uma menina que está
publicando uma tese feita na Sorbonne sobre a solidão
na literatura brasileira vista pela obra de Caetano
Veloso. Francamente, um ensaio como esse cabe num bueiro
de Liliputh. Mas nossos críticos vão dar
atenção porque não estão
interessados em literatura.
O
peixe já está no fim, sobram as batatas.
Tolentino pede barrigas-de-freira como sobremesa, explicando
minuciosamente a um espantado garçom que a culpa
da "gravidez das freirinhas" não é
dele. Enquanto espera, o poeta mostra que não
aposentou o veneno da língua. Diz que soube por
outras pessoas que tinha brigado com Ivan Junqueira,
mas adorou romper relações com o poeta:
-
Ele tinha me chamado para ser jurado de um concurso.
Aceitei, mas resolvi sair do júri na última
hora, para poder me candidatar ao prêmio. Ele
ficou magoado. Tudo bem, isso foi uma bênção.
Fiquei livre de uma múmia empolada. O fato de
eu escrever muito bem milita contra mim, minha briga
com Juju-quem-queira vem daí.
Os
irmãos Campos são o alvo predileto do
poeta, que escreveu o ensaio "Os sapos de ontem"
com o único intuito de criticar o concretismo.
Para Tolentino, o movimento só pôde existir
porque São Paulo é uma terra cheia de
pensadores e filósofos - como Sérgio Buarque
de Holanda e Sergio Milliet - mas sempre foi pobre de
poetas.
-
Os paulistas só produziram Vicente de Carvalho
e Ribeiro Couto, este um poeta menorzinho - avalia.
- Cassiano Ricardo nem comento, porque estamos à
mesa. E Mario de Andrade me dá vontade de rir.
O concretismo está fazendo 40 anos de farsa.
Haroldo e Augusto ainda não conseguiram ser tão
bonitos por dentro quanto são por fora.
O
espírito da letra
[Um soneto do livro A balada do cárcere]
Ao
pé da letra agora, em minha vida
há a morte e uma mulher... E a letra dela,
a primeira, me busca e me martela
ouvido adentro a mesma despedida
outra vez e outra vez, sempre espremida
entre as vogais do amor... Mas como vê-la
sem exumar uma vez mais a estrela
que há anos-luz se esbate sem saída,
sem prazo de morrer na luz que treme?!
O monstro que eu matei deixou-me a marca
suas pernas abertas ante a Parca
aparecem-me
em tudo: é a letra M
a da Medusa que eu amei, a barca
sem amarras, sem remos e sem leme..." |