| Publicado
na Gazeta Mercantil, 7 de dezembro de 1996
Por
que "A Balada do Cárcere" é
bom
O
livro é de autoria de Bruno Tolentino, mas o
que há num nome?
O que importa são os poemas
Daniel Piza
Esqueçam
os poetas. Estamos com sede de poesia. Esqueçam
as classificações. Precisamos de criadores.
Bruno Tolentino é conhecido por amizades com
escritores famosos, por revistas que dirigiu, por ter
estado preso, por ter morado em diversos países,
por polêmicas que vem mantendo com pessoas que
confundem vanguarda com vantagem e só querem
saber de contá-la em vez de produzir poesia,
"poiesis", "Dichten", arte. Mas
esqueçam Bruno Tolentino. E leiam "A balada
do cárcere" (Topbooks), seu melhor livro.
Havia
muitos anos um livro de poemas de tal qualidade não
era publicado nos tristes trópicos. É
de vanguarda ou tradicionalista? É romântico
ou moderno? É moderno ou pós-moderno?
Esqueçam as respostas. O que nos está
fazendo falta são as perguntas. "Pobre infeliz!
Nunca tem mais que a bruma e, aflita, / só entre
assombrações, / sua alma pavoneia-se,
torna-se gralha, imita / os gritos do pavão ciscando
entre os pinhões. / Se um som assim te irrita,/
leitor, fecha este livro e vai ouvir canções..."
Pobre é aquele que, por prestar atenção
a tantos discursos, não consegue ouvir essas
sons.
O
que essa poesia nos dá? Nos dá imagens,
metáforas, símiles que misturam concreto
e abstração, luz e sombra, figura e fundo,
sugerindo o "chiaroscuro" sofrido da prisão.
"Os pântanos do ser", "exaustas
de tossir contra um céu frio", "aqui,
onde fez sombra um movimento, cobre de esquecimento
o ouro das manhãs soltas na brisa", "Penélope
fria que tece a escuridão", "o amor,
essa cisterna cheia dos sons mais ocos", "um
soluço de amor estrangulado", "a alma
curvada sobre o esfarelamento das palavras", "o
dente do desejo é traiçoeiro", "chega
ofegante à curva do limite".
Em
certas estrofes, atinge a harmonia inesquecível,
como no poema "A gralha". "É então
que aquele pária das próprias ilusões,
/ o encarcerado que ninguém visita, / gruda-se
às grades como a parasita / ao fim das estações
/ e, a sós com os nevoeiros, se limita / a desfolhar
visões". Há versos com achados de
linguagem – "o seco olhar do sicário",
"sem escuta e sem escolta", "a angústia
de gerações / como inquilina constante"
– e há versos plenos de sensibilidade intelectual.
E não são versos pinçados: há
farta distribuição de bons versos neste
livro. O poema "O numeropata", sobre um preso
que exibe seu número na nuca, é todo ele
um exemplo – "um escombro cujas queixas/
ninguém se dera ao trabalho/ de ouvir cair como
a chuva,/ como as garoas do orvalho/ sobre as ruínas
da culpa".
Por
vezes, essa poesia assume o paramorfismo, indicando
na própria construção verbal o
objeto que descreve: "Da memória, essa inimiga
/ que tece e retece a teia / em torno de um prisioneiro,/
a aranha que volta e meia / enreda e solta o desejo".
O poema se tece como a aranha e a memória. Por
outras, a imagem ganha a força do escape, num
correlato objetivo: "A aranha que da memória
/ fazia a teia em visita / aos vórtices do vazio".
A memória se amarrando no vazio...
Que
outra poesia feita nos anos 90 ofereceu imagem tão
forte, com tanto teor e tear filosófico? Quem
dirá que os versos seguintes não são
dos maiores que se escrevem hoje? "Se a alma é
sempre o suporte / daquela metamorfose / que faz e desfaz
o forte, / o conta-gotas da morte / serve as almas dose
a dose". Se assinadas, digamos, por Murilo Mendes,
essas aliterações sombrias em "o"
e "e" seriam saudadas como impressionantes.
Não há teoria poética deste século
cuja limitação não fique exposta
diante de tais versos.
"A
balada do cárcere" junta melopéia,
fanopéia e logopéia, nos termos de Ezra
Pound: recorre a melodias, imagens e idéias para
realizar sua dança soturna. Mas o que faz sua
força não é só a sofisticação
verbal; é também sua congruência
com o assunto. O poema "Descobertas", por
exemplo, diz que a paixão e a primavera não
passam de "mera, febril aproximação
da janela aberta da fera", e aí vêm
mais cortes metonímicos: "tremor contínuo
da mão / que agarra o gradil e enterra / as unhas
na solidão / que força mas não
descerra". Da cadeia para o preso, do preso para
a mão, da mão para a unha, e da unha de
volta para a solidão da cadeia. Essa sucessão
comunica uma sensação claustrofóbica,
somada ao poder sugestivo da imagem de uma mão
tentando rasgar o escuro e, a não ser pelo breve
instante do gesto, nunca o vencendo. O homem, nesses
poemas, é visto entre a culpa e a pose, entre
o desengano e a contrafação, entre o desejo
e a alma.
"O
coração desdenha quase tudo depois, senão
durante". "O perigo para a criatura / é
não confiar no invisível". "A
beleza é um precipício". "O
ser é a visão que procura". Dentro
de um repertório gótico, a seqüência
de poemas vai criando uma atmosfera em que presos resignados
sofrem a letargia num local quieto e escuro, onde até
a luz que entra de vez em quando é fria, onde
imperam o vento e o desalento, e "a carne é
lenha condenada". Mas o estilo não é
gótico; não se encaixa em definições,
porque não exalta nem condena. Ele flui à
força de "enjambements", embora não
seja palavroso ou melífluo; ganha arestas no
fato de que o esquema rítmico e estrófico
raramente coincide com os sintagmas das orações.
Aquela
atmosfera é apenas o produto de substantivos
e adjetivos, de ritmos e conceitos, de fatos e paradoxos,
de dores e sinceridades, de referências e descrições
– enfim, de tudo que a linguagem, carregada de
sentido, pode fazer sentir e pensar. Num curto verso
– "A véspera desespera". –
todos esses elementos estão condensados. É
este o grande mérito da poesia de Tolentino,
a melhor de que o Brasil dispõe nesta década.
Que se leia e que se recupere o valor da arte diante
de todo reducionismo e personalismo, diante de toda
a crise cultural do visível.
DESCOBERTAS
(poema do livro "A balada do cárcere")
Descobre-se
que a paixão,
a paixão e a primavera,
se são paralelas são
dois termos na mesma espera.
Espera
encantada ou não,
ambas não passam de mera,
febril aproximação
da jaula aberta da fera,
tremor
contínuo da mão
que agarra o gradil e enterra
as unhas na solidão
que força mas não descerra.
Mordida
de comunhão,
no tronco o dente da serra,
no dente o grito do grão,
e a boca aberta da terra
recebe
e fecunda o chão
com os pedaços que a pantera
desmembrou na confusão
com o corpo que já não era
sequer
a gazela e em vão
se debate e dilacera
de tanta sofreguidão.
A véspera desespera.
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