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A
volta do 'gagogênio'
Coletânea
de Carpeaux reúne 205 textos publicados na imprensa
e jamais compilados em livro
Paula Barcellos
Ensaios
reunidos: 1946-1971
Otto Maria Carpeaux
Topbooks / UniverCidade Editora
942 páginas / R$ 93,90
"É uma felicidade: resolver problemas. Mas
acontece mais raramente do que se pensa. Às vezes
os problemas parecem surgir para a gente reconhecer
que não podem ser resolvidos. O verdadeiro mérito
talvez seja de quem descobre um problema novo, encaminhando-o
à discussão. E se evita a desorientação
num mundo de certezas ilusórias". Pois foi
assim que Otto Maria Carpeaux iniciou seu artigo ''Machado
e Bandeira'', publicado no jornal O Estado de S. Paulo,
em 24 de janeiro de 1959. As palavras do jornalista
e crítico literário austríaco,
que chegou ao Brasil em 1939, refugiado da Guerra, e
por aqui ficou até sua morte em 1978, deveriam
ter sido escritas também para ele. Aglutinador
e carismático, sobretudo provocador sempre, esse
intelectual ''gagogênio'' (como os amigos o apelidaram)
deixou de herança um rico arsenal de inquietações
literárias, políticas, sociológicas.
Muitas delas até agora sem respostas, como se
pode constatar em Ensaios reunidos: 1946-1971 (volume
2), organizado por Christine Ajuz.
Com
prefácio do imortal Ivan Junqueira, a obra reúne
205 textos de Carpeaux, publicados na imprensa, e jamais
compilados em livro, além de três prefácios
dedicados a Manuel Bandeira, Goethe e Hemingway. Desde
1999, quando a Topbooks, em parceria com a UniverCidade,
lançou o primeiro volume, organizado por Olavo
de Carvalho, os pesquisadores do projeto fizeram um
verdadeiro malabarismo para ter acesso ao material desta
edição. O estado dos textos era o pior
possível: praticamente ilegíveis, tiveram
que ser redigitados. Com um empecilho extra: quase todos
tinham parágrafos truncados, o que fez a equipe
recorrer à seção de periódicos
da Biblioteca Nacional. Problema resolvido? Longe disso.
As constantes greves na instituição atrasaram
ainda mais a empreitada. Mas nada que enfraquecesse
os ânimos da publicação. Pelo contrário.
Como a pesquisa, por questões técnicas,
foi prolongada, mais material foi encontrado, o que
resultará em um novo volume do projeto Obra Completa
do editor José Mario Pereira.
De
Napoleão a Vinicius de Moraes, passando por Kafka,
T.S. Eliot, Machado de Assis, James Joyce, além
da análise, no calor da hora, do filósofo
Jean-Paul Sartre, Carpeaux, de forma clara e intensa,
sem abusar na erudição ou no hermetismo,
transitava pelos mais diversos meios e pensamentos (vide
extenso e pertinente índice onomástico
com mais de 50 páginas). Escrevia em jornal
para um público vastíssimo e tinha
ciência disso: ''Não se faz crítica
literária em jornal para desempenhar um papel
de verdadeira ou falsa importância nos círculos
limitados da vida literária. Tenho o direito
de elogiar a vontade de escrever simples, porque já
pequei também muitas vezes contra essa regra.
A linguagem técnica constantemente empregada
inspira a suspeita de servir como a roupa imaginária
do rei no conhecido conto de Andersen: os cortesãos
lhe elogiaram a roupa, mas enfim se descobriu que o
rei estava nu'', ressaltou em 15 de outubro de 1960,
no artigo ''Críticos novos''.
A
utilização da metáfora e do total
domínio do campo semântico são marcas
características dos textos de Carpeaux. Para
falar, por exemplo, sobre as ''Tendências do moderno
romance brasileiro'', em 3 de outubro de 1948, ele partiu
literalmente do tamanho dos livros para chegar à
expansão do nosso universo literário.
Tudo com muito bom-humor: ''Certo dia nefasto, meu amigo,
o editor Martins, em São Paulo, passou a publicar
Jorge Amado em formato grande, 14x21. Foi uma desgraça.
Tive que modificar as distâncias entre as prateleiras.
Depois, nosso querido José Olympio resolveu aumentar
a estatura de Graciliano Ramos, que já nos parecera
inexcedivelmente grande. Quase foi preciso chamar os
especialistas da Dasp para reorganizar e restaurar a
biblioteca. (...) Eis aí a tendência procurada:
o romance brasileiro está crescendo. Os velhos
romances brasileiros no fundo não eram romances
mas sim novelas, às vezes apenas contos de tamanho
considerável. Hoje se escrevem romances verdadeiros
no Brasil''.
Afinal,
era a época de Guimarães Rosa, Graciliano
Ramos, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego.
Em seus ensaios ao menos nos presentes neste
livro , Carpeaux mostrou extremo cuidado ao criticar
diretamente os escritores. Na maioria das vezes, o fazia
por intermédio de uma outra crítica já
publicada. Uma estratégia que requer esperteza
e muito domínio do assunto: ataca-se o crítico
mais do que o autor. É exatamente o que faz em
''Várias histórias'', de 27 de dezembro
de 1958, quando exaltou Machado de Assis, ''um escritor
tão vivo que mal convém comemorar-lhe
a morte''. Um parágrafo é dedicado aos
''críticos da oposição'': ''Não
me refiro ao sr. Otávio Brandão, que,
pretendendo denunciar o niilismo de Machado de Assis,
apenas conseguiu demonstrar seu próprio niilismo
literário. Mas refiro-me à sra. Dinah
Silveira de Queiroz, que declara gostar só de
poucas obras de Machado, preferindo as de Victor Hugo.
A relativa aversão da festejada escritora contra
Machado não surpreendeu ninguém; tudo
é, aliás, relativo. Mas a preferência
por Hugo é tão alarmante que inspirou
artigos polêmicos ao sr. A. Fonseca Pimentel.
Não fez bem''.
Está
aí outra marca das críticas de Carpeaux:
um discurso conduzido pela contradição.
Característica nítida, por exemplo, em
''Justificação do romance'', de 16 de
setembro de 1967, quando analisa o clássico de
James Joyce: ''O romance Ulysses, como obra de arte,
não precisa justificar sua existência;
nenhuma verdadeira obra de arte precisa disso. Mas a
obra de arte Ulysses também é um romance.
E o gênero romance precisa, parece, de justificativa
de sua existência''. Ou como bem pontua Ivan Junqueira
no prefácio: ''Carpeaux gostava muito desse tipo
de ambigüidade, e quase sempre afirmava suas teses
por meio de negações''. Não por
menos, na biografia escrita por Mauro Ventura, o professor
afirma que o crítico adotou o barroco também
como estilo de vida.
Ao
longo dos 205 ensaios, descobrimos que Antonio Candido
foi (e ainda é) o melhor crítico, Scott
Fitzgerald era falsamente sofisticado, Jane Austen tinha
uma literatura que em nada lhe agradava. Mais: Conrad
promoveu uma revolução no romance, Caetés,
de Graciliano Ramos, representaria a tese do romance
brasileiro, e Kafka, a expressão de um mundo
de agonia permanente. E o mais fiel romance sobre Canudos
seria o pouco comentado João Abade, de João
Felício dos Santos. Nesta compilação,
as críticas mais incisivas foram direcionadas
ao poeta e crítico Ezra Pound, com sua ''sistematização
de paranóia'': ''Seu tradicionalismo cultural
está a serviço de um boêmio indisciplinado,
vanguardista nato e irremediável. As disciplinas
verbais e métricas de Pound servem a sua anarquia
mental de um homem profundamente decadente. É
um fragmentarista, um colecionador de migalhas, um diletante
de habilidade vertiginosa'', disparou em ''O difícil
caso de Pound'', em 19 de setembro de 1948. Provocações
à parte, é o momento de citar o próprio
Pound para reavivar ainda mais a obra de Carpeaux: ''Basta
de comentar a coisa, olhemos para ela, é o melhor
a se fazer''.
Texto
publicado no caderno "Idéias" do Jornal do Brasil em
7 de janeiro de 2006.
Leia
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Novo
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A
crítica ligeira e metódica de Otto Maria
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Sinopse
/ coluna de Daniel Piza
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