|
Testemunhos de uma velha amizade
Machado
de Assis & Joaquim Nabuco - Correspondência
Adelto
Gonçalves*
''Éramos
velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria
um grande favor; primeiro porque não acharia ninguém
que melhor me ajudasse a morrer; segundo, porque ela
deixa alguns parentes que a consolariam das saudades,
e eu não tenho nenhum (...)''. Este trecho, que poderia
ter sido pinçado de um romance como Memorial de Aires
(1908), faz parte de uma carta que Machado de Assis
(1839-1908) escreveu, a 20 de novembro de 1904, ao seu
amigo Joaquim Nabuco (1849-1910), a respeito da morte,
dias antes, de sua mulher, Carolina, companheira de
35 anos.
A
missiva faz parte da correspondência trocada entre Machado
de Assis e Joaquim Nabuco, 53 cartas e um bilhete, desde
1865, quando o segundo, ainda rapazinho de 15 anos,
aluno do Colégio Pedro II, escreveu agradecendo comentários
elogiosos feitos pelo primeiro, então com 25 anos, a
respeito de um poema sobre a rendição de Uruguaiana
que declamara diante do imperador.
 |
A
correspondência entre os dois brilhantes autores
— um considerado o mestre do romance brasileiro
e o segundo, diplomata, homem público, orador e
escritor de incontáveis méritos — que sai agora
em terceira edição, só era encontrada em bibliotecas
públicas tradicionais. Coletada e organizada por
Graça Aranha, amigo de ambos, foi publicada primeiramente
por Monteiro Lobato em 1923 e, depois, em 1942,
pela Editora Briguiet como o volume IV das Obras
completas de Graça Aranha. |
Como
observa Antonio Carlos Secchin na apresentação, a correspondência
ultrapassa em muito o âmbito protocolar ou particular
de amigos, e levanta questões importantes sobre o papel
do intelectual e do escritor no período entre o final
do Império e os primórdios da República Velha. E ganha
coesão graças à introdução e às notas que Graça Aranha
escreveu, iluminando o que — aos olhos de quem a lê
um século depois — poderia parecer uma linguagem cifrada.
A
introdução, em certos momentos, parece escrita numa
linguagem envelhecida, extremamente pomposa, como era
comum escrever-se ao seu tempo, o que, porém, não se
vê no texto machadiano. Por isso, não se compreende
por que, em 1922, os modernistas, se combatiam velharias,
foram apoiar-se em Graça Aranha, embora o tenham descartado
logo na primeira oportunidade.
Se
a introdução de Graça Aranha às vezes é um pouco embolorada,
em compensação o prefácio escrito por José Murilo de
Carvalho e a apresentação de Secchin muito contribuem
para situar ao leitor a época em que as cartas foram
trocadas, mostrando que a Academia Brasileira de Letras
constituiu o tema predominante entre os dois, sempre
preocupados com a eleição de um novo acadêmico.
Já
que as cartas não permitiriam ao leitor sabê-lo, Carvalho
lembra que a eleição de Mário de Alencar, escritor de
pouco ou nenhum mérito, para um lugar entre os ''imortais''
foi o primeiro escândalo da Academia — de uma longa
série, diga-se de passagem. Mas, como era protegido
de Machado, Mário de Alencar teve o seu nome escolhido,
o que abonaria outros futuros escândalos, como, por
exemplo, o máximo deles, a escolha do ditador Getúlio
Vargas, contra a qual Afrânio Peixoto se levantou de
maneira corajosa e solitária.
Da
correspondência, pode-se observar que Machado de Assis
— de origem humilde, filho de um mulato e de uma lavadeira
portuguesa dos Açores, ao contrário de Joaquim Nabuco,
de tradicional família de senhores de terra, diplomata
que discutiu com a Inglaterra a questão da fronteira
com a Guiana e foi ministro em Londres e Washington
— foi o funcionário público que preferiu ver o mundo
de longe, deixando que gente da estirpe do amigo vivesse
as vicissitudes do Império e, depois, da República.
A
admiração de Machado por Nabuco era tão grande que em
Memorial de Aires, sua derradeira obra, o protagonista
é um diplomata recém-retornado ao Rio de Janeiro depois
de 30 anos de Europa, entre outras coincidências que
não foram observadas por aqueles que trataram da correspondência
entre ambos.
*
Doutor em Literatura Portuguesa pela USP, autor de Gonzaga,
um poeta do Iluminismo e Bocage: O perfil perdido
Idéias
Jornal do Brasil
Rio de Janeiro
17/01/2004
|