Aristocrata de vanguarda
Pedro do Coutto

Joaquim Nabuco foi, sem dúvida, um dos maiores vultos da história do Brasil, legítimo representante da elite e até da aristocracia, principal figura da campanha pela Abolição da escravatura, superando até a participação de Rui Barbosa. Ambos formaram a liderança de uma frente ampla na fase final do século 19: Nabuco, monarquista; Rui, republicano. No palco central da luta têm lugar também o senador Lopes Trovão — orador fantástico — e José do Patrocínio. Nada mais importante, para a história, do que destacar o papel desempenhado por Nabuco na memória da dignidade nacional.

Foi o que fez o historiador Ricardo Sales em Joaquim Nabuco: um pensador do Império (TOPBOOKS, 2003). No prefácio, Maria Alice Rezende de Carvalho destaca o essencial: conhecer Nabuco é conhecer os fundamentos da construção político-jurídica brasileira. Mas Nabuco não está sozinho na história como um conservador da mais pura elite a desencadear reformas de base. O pensador do Império foi influenciado, evidentemente, pelo exemplo de Lincoln e pelo desfecho da guerra de secessão americana, quando o presidente dos EUA foi reeleito para o último mandato.

Nabuco — assinala Sales — deu alma e vida à idéia brasileira de liberdade. Idéia cuja primeira etapa aconteceu em 1888, com a construção da ponte que levaria à República a 15 de novembro de 1889. Na verdade, o fim da escravidão marcou o fim do Império, acrescenta o autor.

Nabuco tinha a visão universal dos fatos. Era um estadista. Compreendeu que desde a lei inglesa de 1850, do tráfico de escravos — negros derrotados em lutas africanas vendidos pelos negros vencedores como mercadoria, esta é que é a verdade — o campo da escravidão se estreitava. Os dois maiores importadores de seres humanos, Brasil e EUA, eram levados ao recuo. A reforma estava a caminho. Nabuco, que nasceu em 1849 e morreu em 1910, a anteviu.

Ricardo Sales descobriu no gigante da Abolição a influência do pensador francês Ernest Renan, que morreu em 1892. A mensagem cristã de valorização humana, no entanto, era, para Nabuco, maior que seu próprio autor. O humanismo, de fato, continua atravessando os séculos e milênios. Como não se realizou plenamente, a busca permanece.

Dois episódios históricos também tocaram o pensador do Império. O 18 de Brumário de 1799, que levou Karl Marx a escrever uma de suas grandes obras de análise, e o Termidor. O 18 de Brumário de 1799 foi o dia de novembro em que Napoleão, ao retornar do Egito, dissolveu o governo e o regime e se tornou cônsul absoluto da França. O Termidor, período de 9 a 27 de julho de 1724, marcou o período das jornadas revolucionárias contra Robespierre.

Ricardo Sales nota a admiração emocionada de Joaquim Nabuco pelas rupturas históricas. A Abolição americana de 1860 seria mais uma. Vinte e oito anos depois veio a da escravidão no Brasil, vale acentuar, o último país do mundo a rejeitá-la. Um ano e meio depois, aconteceu a ruptura de 1899, quando a República — belo título de Hélio Silva — não esperou o amanhecer.

Sales produziu um livro que, ao realçar a importância da figura de Nabuco, acrescenta muito à história de hoje. Até porque, no Brasil, o passado, em parte, é imprevisível. Ironia? Um pouco. A escravidão foi formalmente abolida no Brasil. Porém, ela — infelizmente — continua sob várias formas.

Idéias
Jornal do Brasil

Rio de Janeiro
17/01/2004



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