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O sergipano tinhoso
Topbooks
comemora o centenário de um livro fundamental
para entender nosso atraso:
A América Latina: males de origem
Rodrigo
de Almeida
O inevitável: sempre que o nome deste historiador
é sublinhado por algo ou alguém, recorre-se
à pergunta por que não se fala
neste Manoel Bomfim? Por que poucos sabem dele? Por
que não exerceu influência no pensamento
brasileiro? Por que, como questionou Darcy Ribeiro,
sua obra extraordinária não serviu de
cimento na construção de nossas consciências
nacionais? Sobre tais questões debruçaram-se
todos os seus intérpretes. De Dante Moreira Leite
a Ronaldo Conde Aguiar. De Nelson Werneck Sodré
a Aluízio Alves Filho. De Antonio Candido a Maria
Thétis Nunes. De Vamireh Chacon a Roberto Ventura
e Flora Süssekind. A certeza: tão brilhante
quanto valente, tão visionário quanto
pouquíssimo lido, é fato que, embora espaçadamente,
o nome de Bomfim e sua obra têm recebido homenagens
com evidente musculatura acadêmica, literária
e jornalística. De alguns anos para cá,
coube à editora Topbooks oferecer a mais importante
contribuição para o reconhecimento deste
historiador, com a reedição de alguns
dos seus principais livros e a acolhida da preciosa
biografia escrita por Ronaldo Conde Aguiar, O rebelde
esquecido, originalmente uma premiada tese de doutorado.
A
novidade: a Topbooks reedita agora, com capa e diagramação
novas, o livro A América Latina: males de origem,
doze anos depois de oferecê-la ao leitor. Justificável.
A obra chega ao centenário neste 2005. E, acima,
de tudo, reafirma, como quase sempre ocorre com este
sergipano tinhoso, a atualíssima identificação
dos vícios repetidos e dos males perpetuados
que se tornaram algumas das melancólicas sinas
do Brasil.
Como
afirmou Elio Gaspari certa vez, poucos estudiosos do
país defenderam seu povo com tanta valentia.
América Latina é uma das provas mais evidentes.
Escrito em 1904, em Paris, ainda sob os eflúvios
da Proclamação da República, nele
Bomfim investiga a causa efetiva dos males
que atingem as antigas colônias ibéricas
da América Latina, atribuindo-os ao peso
do parasitismo das metrópoles
ou seja, à dominação colonial,
para ele um passado funesto. O historiador enuncia como
fundamentos de sua análise o desejo vivo
de conhecer os motivos dos males de que nos queixamos
todos e o desejo de ver esta pátria
feliz, próspera, adiantada e livre.
E
quem não o quis, cara pálida? A diferença,
em Bomfim, é sua originalidade que acaba
se transformando no seu próprio pecadilho. Afinal,
critica as sociologias biologísticas, em moda
na época, mas adere ao biologismo para explicar
o chamado parasitismo social: abaixo do
Equador, diz, a luta não é de classes,
mas entre parasita e parasitado. Utilizando-se de referências
na botânica, na biologia e na zoologia para estabelecer
metáforas sobre a formação social
brasileira, em particular, e latino-americana, em geral,
Bomfim afirma que o parasitismo é a causa
das causas que resume a história
de todas as decadências que vão desaparecendo
as civilizações.
América
Latina desmascara teóricos e publicistas
europeus que, apoiados no cientificismo naturalista
e no evolucionismo, chamavam os povos latino-americanos
de inferiores, entregues, segundo diziam,
ao mais puro barbarismo estéril.
Bomfim questionou o chamado racismo científico.
Os males de origem não vinham dos
povos latino-americanos, mas do parasitismo colonial
e do projeto tacanho das classes dirigentes locais,
que organizaram no continente uma sociedade em proveito
próprio, distanciada da raia miúda.
Para
ele, subordinado ao parasitismo, o Estado brasileiro
hipertrofiou-se e distanciou-se dos verdadeiros interesses
nacionais. (Não sem deixar a dúvida sobre
que interesses se está falando.) Diz Bomfim:
O Estado essa abstração
dissimula homens, de carne e osso, com todas as suas
paixões e defeitos, desenvolvidos na luta pérfida
e terrível que sintetiza a política.
Se não serve aos interesses nacionais,
não é por uma pretensa neutralidade, mas
pelos interesses a que está ligado. Daí
nasce o conservantismo que, por meio de
acomodações necessárias, ajuda
a compor o cenário de uma América Latina
atrasada, turbulenta e desorganizada.
Outras
obsessões integraram o arsenal de idéias
apresentadas por Manoel Bomfim. Uma delas: a preocupação
com a questão racial e a identidade nacional
(América Latina faz uma crítica demolidora
ao racismo, chamando-o de sofisma abjeto do egoísmo
humano e de etnologia privativa das grandes
nações salteadoras). Outra de suas
obsessões foi a educação. Para
ele, a instrução primária seria
o primeiro passo para a superação do atraso
brasileiro; sem a educação da massa popular,
afirma, não é só a riqueza
que nos faltará é a própria
qualidade de gentes entre as gentes modernas.
Depois
de América Latina, Bomfim só voltaria
a escrever uma obra de relevo mais de 20 anos depois,
com a publicação de O Brasil na América
(1929), O Brasil na História (1930) e O Brasil
Nação (1931) os três com
edições recentes da Topbooks. No último,
ele radicaliza. Se em América Latina propunha
uma saída histórica por meio
da instrução básica, pública
e massiva, em O Brasil Nação, incapaz
de divisar os destinos desta pátria nos
planos da normalidade, Bomfim propunha uma saída
revolucionária contra as classes dominantes,
o que ele chamava de Estado opressor conjugado com as
nações imperialistas.
Convém
sublinhar: o Brasil de América Latina é
o do início do século 20, com uma República
recém-proclamada. O Brasil dos livros seguintes
é o da Revolução de 30, com a redefinição
do bloco hegemônico, marcado pela inclusão
das oligarquias até então secundárias,
com o ativismo tenentista e com uma maior participação
da pequena burguesia, do proletariado e de uma incipiente
burguesia industrial (expressões fora de moda,
diga-se). Essa diferença se tornaria crucial
na sua interpretação.
Dessas
mudanças, no entanto, resulta uma linha mais
ou menos perene de imutabilidade de alguns dos problemas
que cercam nossas elites, marcos de espantosas
similaridades entre períodos tão distintos
de nossa história. Lembre-se, por exemplo, o
que falou sobre o papel do economista o financista,
como chamava. Para Bomfim, as dificuldades econômicas
se agravam com os remédios postos em prática
a conselho dos economistas livrescos. (Qualquer semelhança
com a geração de tecnocratas pós-graduados
nas universidades americanas que comandam a economia
há uma década não será mera
coincidência.)
O
historiador analisou, ainda, a apropriação
do Estado por forças políticas de enorme
influência no Parlamento. Na caminhada ao poder,
lembra, os partidos vão gradativamente recebendo
a adesão de aliados do velho poder. Foi o que
aconteceu na República Velha. Foi o que ocorreu
na Nova República. É o que se repete na
República petista. A simbiose entre o velho
e o novo permite às habituais sanguessugas
mudar de embarcação e subir no barco vencedor.
Aos
partidos de oposição ou ao que
se chamava de esquerda pouco resta
além de ganhar realismo e transfigurar-se
em nome da governabilidade. Difícil livrar-se
desta sina, é preciso reconhecer. Bomfim sabia
disso. Mas a dificuldade se amplifica por uma característica
congênita da maioria dos políticos. Definição
dele: Mesmo os mais ousados entre os homens públicos,
os mais revolucionários, escreveu, são
tão conservadores como os conservadores de ofício.
(...) Na véspera, era de vê-lo, apóstolo,
inflamado, radical, incitando as gentes ao combate;
no dia seguinte, a voz se amansa, arrasta-se sensata
nos conselhos da sabedoria e da ponderação
(...). Agora o seu papel é conservar
(...).
E
ainda se teima em esquecer Manoel Bomfim...
Jornal
do Brasil
Rio de Janeiro
24/09/2005
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