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''A
cultura do possível é preguiçosa e acomodada''
Eduardo
Portella critica políticos e intelectuais que fogem
dos desafios
Cristiane
Costa
Um
dos mais influentes — e polêmicos — intelectuais brasileiros
acaba de acrescentar dois livros a sua monumental biblioteca:
Eduardo Portella: a linguagem solidária, editado pela
Topbooks, e Homenagem a Eduardo Portella, publicado
pela Academia Brasileira de Letras, em homenagem a seus
70 anos. Motivos para comemorar não faltam a Portella.
Em reconhecimento a seu papel na formação de várias
gerações de críticos literários brasileiros, acaba de
receber o título de professor emérito da UFRJ.
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Reeleito
presidente do Fundo Internacional de Promoção da
Cultura, da Unesco, ele completa ainda 40 anos à
frente da revista Tempo Brasileiro, com uma bela
edição sobre o centenário de Adorno. E já prepara
o próximo livro, O começo da história, em que fala
sobre sua atuação em diferentes áreas: literatura,
filosofia, política, educação e cultura. Baiano
de nascimento, pernambucano de coração e carioca
por opção, o ex-ministro da Educação do governo
Figueiredo não se arrepende de ter optado pela vida
pública. Para ele, o modelo de intelectual recluso
em sua biblioteca está superado. Assim como o do
crítico literário que se julga uma espécie de juiz
do bem e do mal. |
Nesta
entrevista, em seu amplo apartamento de frente para
o Parque do Flamengo, onde vive com a mulher, Célia,
Portella usou sua famosa verve para comentar a política
cultural e educacional do atual governo. Aos 70 anos,
é com um sorriso maroto que diz: ''Estou com os jovens
das barricadas de Paris que diziam: seja realista, peça
o impossível'. ' Para ele, a cultura deve ser do impossível,
do desafio.
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O senhor foi um dos principais críticos literários brasileiros
e, como professor, formou vários nomes importantes nessa
área. Qual a sua opinião sobre o jornalismo literário
hoje? O crítico de rodapé foi morto pelo crítico universitário
ou morreu de inanição?
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Acho que as duas coisas. As grandes corporações jornalísticas
progressivamente eliminaram o espaço do rodapé literário.
Ao mesmo tempo, a universidade passou a ser o grande
empregador do intelectual. Hoje nem a universidade,
porque paga muito mal. Com isso, a função do crítico
literário mudou muito.
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Houve uma ruptura entre esses modelos de crítica?
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Na verdade, foram duas rupturas. Na década de 50, tivemos
o famoso debate entre Afrânio Coutinho e Álvaro Lins.
O Álvaro Lins era um grande crítico impressionista,
seu poder estava no rodapé do jornal. Já Afrânio pregava
um conjunto de teorias que aprendeu nos Estados Unidos
com as figuras principais do new criticism. Isso gerou
um conflito entre o impressionismo e a nova crítica.
Depois, nos anos 70, veio um segundo debate, pouco favorável
para a hermenêutica, para a crítica de natureza ontológica.
Nessa época, o estruturalismo mandou e desmandou. Depois,
murchou. Hoje pouca gente fala nele. As tendências hiperformalizantes
perderam prestígio. Ainda bem.
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O senhor viveu os dois lados desta briga.
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Sim. Tinha uma formação universitária solidificada em
Madri e Paris. Mas, ao mesmo tempo, fazia o velho rodapé
do jornal. Devo ter sido um dos últimos críticos de
rodapé do país. Minha lembrança dessa experiência é
muito boa. Fazer crítica assim era uma tarefa arriscada,
porque era preciso escrever sobre o livro lançado na
mesma semana, não havia tempo para fazer qualquer especulação
acadêmica.
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A margem de risco era grande, não?
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Sílvio Romero, por exemplo, que foi um dos grandes críticos
literários brasileiros, errou feio com relação a Machado.
E, no passado, esse tipo de crítica desfavorável tinha
muito impacto. Um grande número de leitores ficava só
esperando a opinião do crítico para comprar ou não o
livro. Ele era um pouco como um sacerdote.
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O que foi feito desse poder?
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O crítico no fundo é uma figura um pouco anacrônica,
alguém destinado a ditar o gosto, apontar orientações.
Ora, isso pertence a um período de literatura plena
e de grandes certezas. E o crítico era alguém com uma
bagagem de certezas relativamente ampla. Progressivamente
os críticos sensatos foram perdendo aquelas certezas
tão sólidas. Veja bem: perderam a certeza mas não perderam
o vigor crítico. Na verdade, a certeza era uma fraqueza
crítica. Felizmente aquele típico crítico desapareceu
e acho que não devemos ter saudades dele.
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Qual o papel do crítico hoje?
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O crítico hoje é um leitor a mais, um pouco mais instrumentalizado
do que os outros, mas apenas um leitor. Ele deve se
comportar diante da obra com respeito, sem dizer ''está
errado, não é isso, é aquilo''. Eu não gosto nem acredito
nesse tipo de crítico que se acha um juiz, que quer
ditar o que é certo e errado.
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Uma crítica mal-humorada, em resumo?
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Antes da crítica de rodapé, havia no Rio de Janeiro
uma tradição de crítica oral. Uma das grandes figuras
dessa crítica era Paula Ney. Esses homens se sentavam
no café do Hotel Avenida e conversavam sobre os livros,
com muito humor. Eles consagravam um autor sem ter escrito
uma única palavra.
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Com o tempo, o senhor deixou a crítica e assumiu o papel
de educador, de formador. Por quê?
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Uma das coisas que me incomodavam no modelo de crítico
de rodapé era sua postura de magistrado, que sentencia
o certo e o errado. Acabei deixando a crítica militante
e me concentrei na universidade, onde construí toda
a minha carreira. Tenho orgulho de ter começado como
professor de Cultura Brasileira sucedendo Alceu Amoroso
Lima, na Faculdade Nacional de Filosofia, a velha Filô.
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O senhor já se aposentou. Por que continua dando aulas?
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Porque ensino para aprender. Estou dando aulas no Programa
Avançado de Comunicação Contemporânea (Pacc), da UFRJ,
para alunos de pós-graduação em Letras e Comunicação.
Sinto-me muito recompensado, e até remunerado, mesmo
que não receba nenhum dinheiro.
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Qual é o tema preferido de suas aulas?
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Terminei há pouco um curso em que explorei a figura
do intelectual. Tenho um livro pequenininho, O intelectual
e o poder, que trata das minhas experiências no governo.
Sempre fui um intelectual público. Não sou um intelectual
fechado em gabinete, embora tenha uma biblioteca monumental.
Comecei com 23 anos no gabinete de JK, como assistente.
E daí por diante, dentro ou fora do Brasil, sempre exerci
funções públicas, mas nunca deixei de ler um só dia.
Chegava do ministério às 10h da noite, jantava e lia
até de madrugada.
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Mas a atividade pública não atrapalhava sua produção
ensaística?
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Escrever, sim. Escrever é um ato que exige grande concentração.
Mas não me arrependo. No Brasil, até há pouco tempo
havia uma tendência pós-romântica que imaginava o intelectual
como uma figura no mundo da Lua. Acho que a pessoa que
é assim nem intelectual é. Intelectual é um espectador
ativo da cena cultural brasileira. Administrei município,
estado, nação e organismos internacionais. Exerci os
maiores cargos que um brasileiro já teve na Unesco.
O mundo da educação, da ciência, da cultura e da comunicação
me toca enormemente. Acredito que a luta hoje tem que
ser nessas quatro frentes.
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Com toda politicagem e jogos de interesses, a atividade
pública não acaba sendo frustrante para o intelectual?
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O lado político não é gratificante, mas, em compensação,
o ato público abrange um raio muito mais amplo do que
o ato meramente intelectual.
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Qual sua opinião sobre a atual política cultural brasileira?
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O presidente diz que vivemos a cultura do possível,
certamente se referindo às restrições orçamentárias.
Eu discordo. Acho que a grande cultura é a cultura do
impossível. Quando há possibilidade, há acomodação;
quando há impossibilidade, há desafio. Nisso estou com
aqueles jovens das barricadas de Paris em 1968 que diziam:
"seja realista e peça o impossível". A cultura do possível
é estacionária, sedentária, preguiçosa.
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O senhor gosta do atual ministro da Cultura?
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Ainda não posso fazer uma avaliação. Ele pegou um orçamento
ruim, num momento difícil do Brasil. Não participo de
uma avaliação pejorativa, de modo algum. Sei o que é
administrar, e administrar em tempos de crise e de FMI
não é nada fácil.
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O senhor concorda com a proposta do governo de reforma
da universidade?
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Está havendo um sacrifício de qualidade progressivo
na educação brasileira, especialmente na educação superior.
As universidades estão quase abandonadas, nas mãos de
alguns heróis que ainda conseguem pesquisar e produzir
intelectualmente. Não há mais bibliotecas, os laboratórios
não estão devidamente equipados. Uma universidade mais
livre, menos dependente do poder público, é fundamental.
Mas é preciso que o Estado se convença de que deve investir
em educação, cultura, ciência e comunicação. Se o Estado
continuar cruzando os braços ou imaginando que essas
áreas são autofinanciáveis, estará inviabilizando-se.
Não há país que avance socialmente desse jeito.
Idéias
Jornal do Brasil
Rio de Janeiro
31/01/2004
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