| Uma
história do choque entre economia e liberdade Reunião
de três ensaios apresenta Michael Oakeshott ao leitor brasileiro Mary
del Priore Professora de História da USP e da PUC-RJ Sobre
a história Michael Oakeshott Topbooks 304 páginas R$ 43
 | Aos
18 anos, ele escreveu um artigo para a revista do colégio onde estudava, o rigoroso
Saint George's. O título? ''Da experiência de ensinar história''. Desde então,
Michael Oakeshott estabeleceu um longo diálogo com o século 20, diálogo marcado
pelo fim da República de Weimar, a emergência do nazismo, a Guerra Fria, maio
de 1968, a queda do Muro e as incertezas que varreram as ciências a partir dos
anos 80. Sobre a História, reunião de três ensaios publicados pela primeira vez
em Londres nove anos após sua morte, em 1990, resume as preocupações que marcaram
tanto a crítica do seu tempo quanto seu itinerário de intelectual. Pois é exatamente
a história do sangrento século 20 que dá unidade e originalidade a seu pensamento.
| Unidade
porque todos os seus artigos e livros a ela se prendem, mesmo quando transcendem
as clivagens de disciplinas e gêneros, tentando pensar os vários setores das sociedades
modernas: as relações sociais, os regimes políticos, as discussões ideológicas
ou até a poesia e a literatura. Sua intensa produção investiu em descrever e compreender
a maneira como se combinaram as diversas dinâmicas das forças econômicas e sociais
com a liberdade dos homens. Et pour cause, pois Oakeshott viveu as duas guerras,
a violência, os heróis, os genocídios e os totalitarismos delas decorrentes. Duramente
confrontado com a partilha do mundo, mas também com o estilhaçamento dos saberes,
o cientista inglês optou pela valorização do indivíduo, de sua autoconfiança e
direitos, de seu pensamento prático. Sua abordagem está centrada no papel que
acorda à liberdade no destino do século, bem como no status desta liberdade; fundado
na análise política e histórica. Um tema, enfim, enraizado nas dramáticas condições
de vida de uma época. Mas
quem é este pensador de renome internacional ainda desconhecido do público brasileiro?
Nascido em 11 de dezembro de 1901 em Chelsford, condado de Kent, Michael Joseph
Oakeshott fez seus primeiros estudos de 1912 a 1920 no já mencionado Saint George's,
uma escola quaker. De 1920 a 1926 esteve no Gonville and Caius College, em Cambridge,
onde, depois de incursões a Tübingen e Marburg para novos estudos, voltou para
assumir o posto de professor-assistente de História. No mesmo ano em que Gilberto
Freyre publicava Casa-grande & senzala, que a França colhia uma das melhores safras
de Romanée Conti, que Fulgêncio Batista subia ao poder, o inglês publicava sua
primeira obra filosófica, Experience and its modes, seguido, em 1939, por Social
and political doctrines of Europe. Os tempos eram terríveis: a Europa assistia
impotente à falência das estruturas liberais, as classes médias se proletarizavam,
greves e movimentos pró-ditaduras se multiplicavam. Pior: o medo do ''perigo vermelho''
era crescente e o Estado liberal e democrático parecia incapaz de resolver tanto
a crise econômica quanto o avanço socialista. O fio condutor de seus trabalhos
era um só: investir contra os ''racionalistas'', pessoas que pensavam poder aplicar
esquemas intelectuais ao mundo político, solucionar problemas concretos à luz
de generalizações. Atacava, assim, o marxismo de intelectuais como Bernstein,
Kautsky ou Max Adler, defensores de teses fortemente condicionadas pelo agnosticismo
kantiano, crentes na ''neutralidade'' científica e, portanto, na existência de
uma teoria social absolutamente não-subjetiva. Não
contente em pensar sobre história, Oakeshott foi um dos seus protagonistas. Oficial
do exército britânico, serviu no mais sangrento teatro da Segunda Guerra e nos
campos de batalha da França e da Alemanha, de 1942 a 1945. Ao voltar a Cambridge,
ele fez uma primorosa edição crítica do Leviatã, de Hobbes, e fundou o periódico
The Cambridge Journal, entrando alguns anos depois para o então recém-fundado
Nuffield College, em Oxford. Dizem as más línguas que só não ocupou a cadeira
de ciência política em Cambridge por causa de seu amor às corridas de cavalos,
paixão traduzida no simpático texto A New Guide to the Derby: How to Pick a Winner.
Ora, Dostoievsky era viciado no jogo de roleta... Em 1951, Oakeshott irá ocupar,
na London School of Economics, a cadeira de um dos mais proeminentes marxistas
ingleses, Harold Larski, posição na qual permaneceu até sua aposentadoria em 1967. Oakeshott
manteve-se muito ativo até o final da vida, merecendo inúmeras edições póstumas
de suas obras. Nestes três vigorosos ensaios de Sobre a história, ele se debruça
sobre o conhecimento da matéria histórica, examina questões referentes à autoridade
política e suas relações com a sociedade e usa a fábula da Torre de Babel para
pensar o indivíduo e o coletivo. Exemplarmente publicada pela Topbooks em convênio
com o Liberty Fund, em tradução primorosa de Renato Lemos, acrescida de um prefácio
de Evaldo Cabral de Mello que o situa na constelação dos grandes pensadores políticos
de nosso tempo, esta obra descortina questões pouquíssimo freqüentadas por nossos
historiadores. No primeiro ensaio, Oakeshott busca definir o conceito de história
e entender a coerência da disciplina. Perde tempo quem procurar aí as interrogações
que açodam a historiografia atual, historiografia voltada para a narrativa, os
indivíduos e sua cultura, as práticas cotidianas, o imaginário ou o lugar das
minorias. Espremido
entre os ícones da escola anglo-saxônica marxista, como Eric Hobsbawm, Perry Anderson
e Edward P. Thompson — cujos trabalhos enfocaram ''a história vista de baixo''
ou buscaram uma ''lógica histórica'' na perquirição adequada dos documentos —
e os clássicos da maior historiografia do século XX, a francesa, com sua renomada
École des Annales, o autor produziu idéias singulares. Ele sugere que se busque
no que chama de ''passado histórico'', passado informe, complexo e não evidente,
certa compreensão por meio da narrativa. Não cabe ao historiador, explica, debruçar-se
sobre os tempos idos para exumá-los como se faz numa lição de anatomia, mas, sim,
compreender ''homens e eventos mais profundamente do que foram compreendidos na
época em que viveram e aconteceram''. Por trás da tese meio óbvia, sua preocupação
maior é a de sublinhar que a história nada pode pelo presente, uma vez que ela
é informe, ambígua e mutante. Olhar para trás, perscrutar o ontem em nada remediaria
o hoje imediato. No
segundo ensaio, o autor discorre sobre um de seus temas preferidos: as relações
humanas e as preocupações associativas como fenômenos de civilização. Dialogando
com o clássico do holandês J. Huizinga, Homo Ludens, desenvolve a idéia de que
a moral e os limites, tal como nos jogos, são responsáveis pelos fenômenos civilizatórios
mais importantes. No terceiro, ''A Torre de Babel'', usa um conceito que lhe é
caro, o de compaixão — não no sentido cristão, mas pagão — para tratar daquilo
que, na condição humana, não é fruto de escolha ou opção. A fábula lhe permite
discorrer sobre a disputa para chegar aos céus sem a ajuda dos deuses, revelando,
simultaneamente, a impiedade daqueles que não admitem a diferença nem a vida fora
do mundo que desejam exclusivamente para si, mundo à sua imagem e semelhança.
Sente-se aí a pluma do erudito que, para além de criticar o excessivo individualismo
de seus contemporâneos, sua ''volubilidade e vulgaridade moderada'', reconhece,
também, a atualidade de Babel como ''uma cidade atribulada pelo alvoroço de obter
e gastar''. A figura patética e isolada de Nimrod faz pensar no atrativo dos profetas
modernos, afogados na própria logorréia, que, se por um lado valorizam o trabalho
e o bem-estar material, acabam por encontrar-se sós, diante de seus próprios destinos,
sem sentido ou horizonte para a vida. As escolhas pessoais sobrepondo-se aos destinos
coletivos só fazem, como diz ele, ''estender as fronteiras do inferno''. É este,
certamente, o ensaio que mais o aproxima de autores coetâneos como Sartre, Camus
ou Heidegger, que também pensaram o desespero, o niilismo e o absurdo. Michael
Oakeshott está longe das preocupações que hoje incidem sobre a disciplina: dar
prioridade a uma problemática que interrogue a documentação, pois não há olhar
sobre as sociedades, passadas e contemporâneas, sem condição de saber o que procuramos
ou por que procuramos. Por outro, sua intuição segue absolutamente válida: não
há história que seja o resultado calculado de certas manipulações, não há ciência
feita de leis ou metáforas de tipo biológico capazes de condenar grupos humanos
a nascer, crescer e morrer, nem existe razão cujo deslocamento imponha às sociedades
evoluções necessárias. Para Oakeshott, como para muitos de nós, mesmo depois de
tantas crises epistemológicas como o desconstrutivismo ou o relativismo, a história
segue uma aventura intelectual inesgotável. Idéias
Jornal do Brasil Rio de Janeiro 31/01/2004 |