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Publicado
no Jornal do Commercio em 14 e 15 de janeiro de 2006
A crítica ligeira e metódica
de Otto Maria Carpeaux
Mauro
Souza Ventura*
Um
ensaísta dividido entre a lucidez pontual da
crítica ligeira e a tarefa metódica da
interpretação. Assim pode ser caracterizado
o austríaco-brasileiro Otto Maria Carpeaux (1900-1978),
que tem duas centenas de seus inúmeros artigos
dispersos publicados agora, no segundo volume de Ensaios
Reunidos (Topbooks/UniverCidade, 942pp./ R$ 93,90).
Um
dos mais importantes críticos literários
do país, Carpeaux escreveu uma infinidade de
textos. Estimativa feita em 1968 contabilizava cerca
de 1.500 artigos publicados em jornais e revistas durante
quase três décadas de atividade. Difícil
saber com certeza o quanto Carpeaux escreveu. Certo
mesmo é que o leitor tem à sua disposição
mais 205 textos que até então se encontravam
dispersos e, talvez, perdidos, não fosse o trabalho
da jornalista Christine Ajuz, responsável pela
penosa tarefa de estabelecimento do texto, e, em especial,
pela louvável atuação do editor
José Mario Pereira, que - em parceria com a UniverCidade
de Ronald Levinsohn - está à frente do
projeto de publicação da Obra Completa
de Carpeaux, e já anuncia para este ano a reedição,
em três volumes, de sua História da literatura
ocidental.
Com
exceção de alguns artigos publicados no
suplemento dominical "Letras e Artes", do
jornal carioca A Manhã, e coligidos por Alfredo
Bosi na coletânea Sobre Letras e Artes (Ed. Nova
Alexandria, 1992), dos três prefácios a
obras de Manuel Bandeira, Goethe e Hemingway e um ou
outro texto incluído na coletânea Reflexo
e Realidade, de 1976, todos os demais artigos são
absolutamente inéditos em livro, transformando
o grosso volume que chega ao leitor numa preciosidade.
Esta
segunda parte dos Ensaios Reunidos traz artigos publicados
nas décadas de 1940-60, escritos sob encomenda
para veículos como O Jornal e A Manhã,
ambos do Rio de Janeiro, e O Estado de S. Paulo, num
ritmo quase semanal. Lá estão os temas
preferidos de Carpeaux, ou seja, literatura, música,
cultura, política e idéias. Como escreve
o poeta e crítico Ivan Junqueira no belo e esclarecedor
prefácio à coletânea, o "olhar
de Carpeaux, no afã de penetrar mais fundo nos
extratos do fenômeno literário, se esgalha
em direção a outras áreas do conhecimento
que lhe são contíguas". Ciente de
que não se é um bom crítico literário
sendo apenas crítico literário, Carpeaux
não hesita em transpor as fronteiras entre as
disciplinas. O resultado é, como anota Junqueira,
uma "multiforme e gigantesca prosa doutrinária",
em que a literatura não se constitui enquanto
expressão isolada, mas se deixa contaminar por
todas as manifestações do espírito.
Autor
de uma obra composta de artigos, ensaios, prefácios
e introduções, Carpeaux foi também
um ativo intelectual que desempenhou importante papel
de mediador cultural. Isto se deveu, em grande parte,
à sua atuação na imprensa, comentando
autores e literaturas desconhecidos ou pouco divulgados
entre nós, como o holandês Simon Vestdijk
ou o poeta eslavo Ivan Cankar.
Mais
polêmico é o caso de Franz Kafka, objeto
de seu primeiro texto publicado no Brasil. Uma das preciosidades
desta coletânea é o artigo "Fragmentos
sobre Kafka", escrito em julho de 1946 para O Jornal,
em que Carpeaux relembra, "não sem certo
orgulho", ter sido ele o autor do primeiro artigo
sobre Kafka no Brasil. Trata-se de "Franz Kafka
e o mundo invisível", publicado em 1942
em A cinza do purgatório e incluído no
Volume 1 de Ensaios Reunidos, de 1999 (Topbooks/UniverCidade).
Ao
escrever sobre Kafka, Carpeaux aborda um de seus assuntos
prediletos em matéria de história literária:
a confusão entre nacionalidade política
e nacionalidade lingüístico-literária.
Apesar de ter nascido em Praga e ter escrito exclusivamente
em língua alemã, o autor de O Processo
não pode ser classificado nem como escritor tcheco,
nem como alemão. Isso porque, segundo Carpeaux,
durante 35 anos de sua vida, de 1883 a 1918, Kafka foi
cidadão austríaco e, também, porque
a língua na qual Kafka escreveu não é
exatamente a língua alemã. "A língua
alemã falada na Áustria difere pelo vocabulário
e pela sintaxe da língua alemã falada
na Alemanha", observa o crítico.
"É
um alemão sui generis, cheio de influências
eslavas, latinas, húngaras. Por mais que os escritores
austríacos de língua alemã se esforçassem
em escrever corretamente o idioma de Goethe, não
conseguiram eliminar a intervenção de
'austriacismo'. Eis a língua de Kafka".
O argumento de Carpeaux em relação a Kafka
é idêntico ao invocado pelo jovem Otto
Karpfen em A missão européia da Áustria.
Neste pequeno livro político, publicado em Viena
em 1935, a independência da Áustria é
sustentada, entre outros motivos, pela especificidade
da cultura austríaca diante do avanço
do pan-germanismo nos anos 1930, que preconizava a união
da Alemanha com a Áustria.
Em
sua fase brasileira, na segunda metade do século
XX, Carpeaux teve papel destacado no processo de formação
do leitor culto, como o demonstram sua participação
no projeto das enciclopédias Barsa, Delta Larousse
e Mirador e a produção de obras de caráter
de divulgação, como A Literatura Alemã,
de 1964, ou a monumental História da Literatura
Ocidental, publicada entre 1959 e 1966. Como revela
o poeta Ivan Junqueira, que conviveu com Carpeaux na
década de 60 e de quem se tornou amigo e discípulo,
sua influência foi decisiva na formação
de inúmeros futuros intelectuais brasileiros.
"Sua lição contribuiu de maneira
notável para o nosso amadurecimento como intelectuais",
escreve Junqueira.
Em
paralelo a essas atividades, Carpeaux exerceu durante
três décadas a chamada crítica prática.
Como tal, suas formulações teóricas,
necessárias para a sobrevida acadêmica
de qualquer autor, estão disseminadas por essas
centenas de artigos. Vem daí a dificuldade de
se estudar uma obra cuja aparência fragmentária
parece dissolver todo e qualquer vestígio de
unidade. Um dos méritos de Ensaios Reunidos,
cujos dois volumes juntos somam nada menos do que 375
artigos - um terceiro volume já vem sendo preparado,
contendo mais material disperso - está justamente
em resgatar para o leitor a possibilidade de uma visão
sistemática do método e dos procedimentos
analíticos de Carpeaux, colocados em prática
durante quase quatro décadas.
Suas
interpretações do fenômeno artístico,
sempre fortemente armadas de erudição,
deixam a lição de que as armas da crítica
precisam ser forjadas apenas e na medida em que a obra
as solicita. Contrário à aplicação
mecânica e instrumental do método crítico
à obra, Carpeaux percorre um movimento que pode
ser traduzido pelo seguinte axioma: é a obra
literária que funda o método. É
ela que o elege, e não o contrário. Tudo
isso e muito mais está à disposição
do leitor neste segundo volume de seus ensaios.
*
Mauro Souza Ventura é doutor em Teoria Literária
e Literatura Comparada pela USP, professor da Faculdade
Cásper Líbero e autor do livro De Karpfen
a Carpeaux (Topbooks).
Leia
também:
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Presença
de Carpeaux
Relembrando
Otto Maria Carpeaux
Carpeaux
redescoberto
Carpeaux,
fenômeno intelectual
Novo
volume dos Ensaios Reunidos, de Otto Maria Carpeaux,
compreende 205 artigos de jornal inéditos em
livro
A
volta do 'gagogênio'
Otto
Maria Carpeaux: a biblioteca aberta
Sinopse
/ coluna de Daniel Piza
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