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Livros
Dom João VI no Brasil, de Oliveira
Lima. Rio de Janeiro: Topbooks, 790 p. / R$69,00
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Volta
às livrarias um dos maiores clássicos
da historiografia brasileira: D. João VI
no Brasil, de Oliveira Lima. Antecipando as comemorações
pelos duzentos anos da chegada da família
real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 1808, o livro
ganha uma nova capa e prefácio do crítico
Wilson Martins. Publicado pela primeira vez em 1908,
quando o Brasil - uma república recém-nascida
- ainda tropeçava nas raízes da nacionalidade,
Oliveira Lima traz de volta à memória
dos intelectuais brasileiros a tradição
lusitana, que o romantismo tentou, no século
XIX, sepultar. |
Portanto,
mais do que uma biografia de um rei gorducho e caricato,
a obra é o retrato de uma época: o período
joanino (1808-1821), momento-chave da nossa emancipação
política. Oliveira Lima foi o primeiro a defender
esta tese, hoje tão reivindicada pelos historiadores
que trabalham o período. Neste curto espaço
de tempo, d. João implantou na colônia
as bases para o nascimento de uma nação,
calcado no projeto de império luso-brasileiro,
concebido pelo ministro d. Rodrigo de Souza Coutinho
(1756-1812). Para comprovar seus argumentos, o historiador
e diplomata pernambucano consultou incontáveis
documentos, naquela época inéditos, de
arquivos europeus, brasileiros e, até mesmo,
norte-americanos. Ao longo dos trinta capítulos
que compõem a obra - escritos com apuro e com
um gosto particular em narrar detalhes das intrigas
palacianas -, Oliveira Lima aposta no peso das relações
diplomáticas como principal chave de compreensão
da política joanina. Com a Grã- Bretanha,
as duras negociações em torno da abertura
dos portos (1808) e, posteriormente, o tratado de 1810.
Com a França napoleônica, a delicada questão
dos limites, na região da Guiana. Com a Espanha,
as pretensões da rainha Carlota Joaquina em se
apoderar dos Domínios hispânicos na América.
Entremeando essas discussões, capítulos
pitorescos sobre o cotidiano dos habitantes do Rio de
Janeiro, solenidades da corte, tráfico de escravos,
entre outros, que de certo modo antecipam uma linguagem
que será utilizada por Gilberto Freyre em clássicos
como Casa-grande & senzala. Destaca-se
o capítulo dedicado a Carlota Joaquina, com quem
Oliveira Lima não disfarça sua implicância,
considerando-a "o maior estorvo da vida de d. João
VI". Quase cem anos depois de sua primeira edição,
a obra continua sendo a principal análise do
período. (Nívia Pombo, in revista
Nossa História, número
37, novembro de 2006)
Publicado
na Revista de História da Biblioteca Nacional,
nº 28, janeiro de 2008
CLÁSSICOS
Para
início de conversa
A
República ainda andava às turras com os
monarquistas em 1908 quando, no centenário da
chegada da Corte Portuguesa ao Rio de Janeiro, o historiador
e diplomata pernambucano Manuel de Oliveira Lima (1867-1928)
publicou, pela primeira vez, D. João VI no Brasil
(4ª edição, Topbooks, 2006, R$ 69,00).
Considerado um clássico da historiografia brasileira,
o livro completa 100 anos e permanece como o mais importante
estudo sobre o período joanino.
Empenhado
em desfazer a imagem de um rei desleixado, Oliveira
Lima revelou um monarca complexo, marcado por uma personalidade
indecisa, mas sensível aos seus deveres políticos
de estadista. Consultando uma copiosa documentação
diplomática, o autor descobriu que os planos
de transferência de família real para o
Brasil eram anteriores a 1807, e empurrou para escanteio
a imagem caricata de “fuga”, defendendo
a originalidade da decisão portuguesa.
Com
uma narrativa envolvente, a obra por vezes parece um
longo romance, ambientado num Rio de Janeiro cheio de
vida, com dias ensolarados, colorido pelos festejos
e pela alegria ruidosa dos seus habitantes. Os personagens
também ganharam contornos mais humanos: a rainha
Carlota Joaquina, grande vilã do livro, vivia
a tramar contra o bondoso D. João. Ministros
e funcionários régios, todos têm
seus segredos e interesses políticos revelados,
em momento extremamente tenso da História do
Brasil e de Portugal.
Publicado
no blog de Adelto Gonçalves em março de
2008:
www.blog.comunidades.net/adelto
HISTÓRIA
Dom
João VI revisitado
Adelto
Gonçalves*
No
começo deste 2008, várias exposições
em museus, arquivos e até shopping-centers comemoraram
os 200 anos da abertura dos portos do Brasil às
nações amigas. E o fizeram muito bem.
Mas os organizadores esqueceram de avisar aos estudantes,
e a todos aqueles que se interessaram pelas exposições,
que essas nações amigas a que o príncipe
regente D. João (1767-1826) se referia em seu
decreto não passavam de um subterfúgio,
um eufemismo, porque o que ele fizera fora mesmo franquear
os portos brasileiros à Inglaterra.
Até porque, naquele ano, esse era o único
Estado da Europa capaz de fazer frente ao poder de Napoleão
Bonaparte (1769-1821), o corso francês que tinha
todo o continente sob seu jugo como aliado ou protetorado.
Afinal de contas, a Inglaterra, com sua possante marinha
de guerra, protegera a saída estratégica
da família real portuguesa de Lisboa rumo ao
vice-reino do Brasil.
A
rigor, nos anos de 1808 a 1814 os portos do Brasil não
estiveram abertos a nenhuma nação amiga,
exceto à Inglaterra, que manteve verdadeiro monopólio
mercantil sobre as terras lusas na América. E
mesmo quando, em 1814, saiu um decreto que abolia certos
privilégios aos comerciantes ingleses, a Inglaterra
já estava armada com um vantajoso tratado comercial
de 1810, e ocupara tantas posições estratégicas
no mercado que, por muitos anos, continuaria a usufruir
das inúmeras vantagens de um status de monopólio.
Com isso, os Braganças pagavam com juros e mais
juros o favor inglês que lhes permitiria uma sobrevida
de mais de 80 anos no Novo Continente.
Quem
quiser saber em detalhes o que foi esse tratado leonino,
tão hostil aos interesses de Portugal e do Brasil,
deve ler D.João VI no Brasil, de Oliveira Lima
(1867-1928), que, lançado em 1908, ganhou em
2006 a sua quarta edição. Trata-se de
um clássico da historiografia brasileira, bem
documentado com pesquisas de arquivos, que se tornou
modelo para estudos biográficos de monarcas brasileiros,
e que ainda hoje constitui um paradigma para aqueles
que se aventuram no ofício de historiador.
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Pouco
lida, esta obra monumental, ao longo de 100 anos, havia
sido reeditada apenas em 1945, e depois só em
1996 pela Topbooks, e não teve força para
derrubar o mito segundo o qual D. João era um
príncipe medroso e bobão – imagem
que o historiador Oliveira Martins (1845-1894) pôs
a andar, e que ainda hoje só historiadores nada
sérios ainda fazem questão de repetir,
talvez no afã de conquistar leitores mais facilmente.
Oliveira
Lima também contestou a imagem caricata da “fuga”
da família real, e provou, com documentação,
que os planos de transferência da corte eram anteriores
a 1807, fazendo assim a defesa da opção
portuguesa numa altura em que nenhum monarca europeu
imaginaria instalar-se no Novo Continente. E ainda mostrou
os benefícios que a presença da corte
trouxe para o Rio, e para a emancipação
do Brasil como nação.
Para
Oliveira Lima, o reinado brasileiro de D.João
foi o único período de imperialismo consciente
que registra a história brasileira, pois o avanço
além dos limites do Tratado de Tordesilhas por
aventureiros paulistas – só mais tarde
chamados de bandeirantes – havia se dado de maneira
instintiva, sem que houvesse uma estratégia planejada
por parte do governo. Em resposta ao desaforo de Napoleão,
D.João, de maneira deliberada, anexou a Guiana
Francesa – de que, depois, Portugal abriria mão
no Congresso de Viena para reaver o perdido que era
posse legítima e tradicional – e a província
Cisplatina, que o primeiro reinado independente também
teve de sacrificar.
Enfim,
mostrou que D. João, embora epiléptico
e sofrendo de outros problemas de saúde, soube
tomar as decisões necessárias nos momentos
difíceis, diante das circunstâncias que
as exíguas forças de seu reino permitiam.
E que nada se fez de afogadilho: até mesmo a
anexação da Guiana e da Cisplatina foi
uma decisão que já havia sido tomada em
Lisboa, antes mesmo da saída da família
real, com a concordância inglesa.
Além
de mostrar que o príncipe regente soube se cercar
de bons ministros, especialmente D. Rodrigo de Sousa
Coutinho (1755-1812), o conde de Linhares, o mais notável
de seus auxiliares, Oliveira Lima antecipou o que só
livros mais recentes da historiadora Francisca L. Nogueira
de Azevedo – Carlota Joaquina na corte do Brasil
(Rio de Janeiro, Civilização Brasileira,
2003) e Carlota Joaquina: cartas inéditas (Rio
de Janeiro, Editora Casa da Palavra, 2007) – confirmaram
documentalmente: o empenho da princesa na defesa da
integridade dos domínios espanhóis na
América depois da deposição dos
Bourbons, o que também refaz a imagem caricata
que a propaganda republicana construiu da consorte de
D.João.
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Oliveira
Lima repete a informação do irlandês
Thomas O' Neill, oficial da marinha britânica,
testemunha ocular do embarque da comitiva de D. João
em Lisboa (e do desembarque no Rio de Janeiro), segundo
a qual 15 mil pessoas teriam acompanhado o príncipe
regente em sua retirada. Mas, em várias passagens,
desqualifica O' Neill, ao considerá-lo uma testemunha
“não inteiramente digna de fé desse
acontecimento memorável”.
A
exemplo de Oliveira Lima, muitos historiadores têm
repetido essa informação, mas nunca se
preocuparam em ir ao Arquivo Nacional do Rio de Janeiro
(ANRJ) para conferir o registro da entrada dessa gente.
O livro de O' Neill, escrito em 1810, acaba de ganhar
nova edição: A vinda da família
real portuguesa para o Brasil (Rio de Janeiro, José
Olympio, 2007).
Nireu
Cavalcanti, autor de O Rio de Janeiro setecentista (Rio
de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2004) foi o único
historiador, até agora, que esteve no ANRJ para
conferir essas listas. Fez as contas e concluiu que
o número de pessoas que desembarcaram no Rio
de Janeiro em 1808 e 1809 não passou de 444,
“entre as quais 60 membros da família real
e da alta nobreza portuguesa, que chegaram ao Rio de
Janeiro nos dois anos em questão”. Mas
a maior parte dos historiadores ainda prefere se aferrar
aos números de O' Neill porque, afinal, é
mais fácil repetir o que já está
impresso. E ninguém gosta de admitir erros ou
corrigir equívocos.
O
curioso é que Oliveira Lima repete também
uma informação do britânico J. Luccock,
que consta de Notes on Rio de Janeiro and the southern
parts of Brazil; taken during a residence of ten years
in that country from 1808 to 1818 (Londres, 1820) segundo
a qual, por essa época, a população
do Rio de Janeiro contava com um milhar de empregados
públicos e outro milhar de dependentes da corte.
Portanto, onde estariam os 15 mil que teriam vindo em
1808, e que seriam, na maioria, funcionários
da monarquia?
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Em
D. João VI no Brasil, Oliveira Lima se refere,
na página 233, a “um Carlos José
Guezzi”, que seria um dos “numerosos agentes
confidenciais” em Buenos Aires e Montevidéu
de D. Rodrigo de Sousa Coutinho (1755-1812), que sempre
foi considerado maçom, embora tenha negado a
condição várias vezes. Mas, como
se percebe, o autor desconhecia quem era esse Guezzi.
Por
isso, é bom que se acrescente que Carlos José
Guezzi (nome aportuguesado) era um médico piemontês
que foi físico-mor da capitania de Moçambique,
Rios de Sena e Sofala, e juiz da balança da alfândega
da Ilha de Moçambique, e que, já enriquecido
com o tráfico negreiro, partiu em 1803 rumo ao
Reino, com a intenção de, antes, negociar
escravos no Cabo da Boa Esperança, Rio de Janeiro
e Montevidéu. Ao que parece, instalou-se no Cone
Sul, tornando-se informante de D. Rodrigo, provavelmente,
em razão de suas ligações maçônicas.
Em
meio à briga política que tinha por objetivo
resguardar os direitos de D. Carlota Joaquina sobre
a América espanhola, numa época em que
o rei da Espanha fora apeado do poder por Napoleão,
Guezzi foi preso em 1811 e remetido pelo governador
de Buenos Aires para Cádiz, onde a regência
o mandou soltar depois que o ministro D. Pedro Sousa
Holstein (1781-1850) reclamou sua libertação.
Aliás, como Guezzi, Sousa Holstein (depois duque
de Palmela) nascera em Turim e, a esse tempo, era embaixador
de D. João em Madri.
Como
curiosidade, pode-se dizer que Guezzi foi quem, em 1800,
comprou do poeta Tomás Antônio Gonzaga
(1744-1810), ex-ouvidor de Vila Rica – e desterrado
em Moçambique por sua participação
na conjuração mineira de 1789 –
um palmar na Cabaceira Grande e não pagou, o
que fez com que o prejudicado recorresse à Justiça.
O palmar, na verdade, pertencera à avó
materna de Juliana de Sousa Mascarenhas, mulher de Gonzaga.
A Guezzi o poeta vendera também três escravos.
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Um
grande traficante negreiro de Moçambique, como
Guezzi, foi Eleutério José Delfim, aquele
que teria levado a credencial da maçonaria carioca
para que José Joaquim da Maia e Barbalho (1757-1788),
estudante em Montpellier, atrás do pseudônimo
Vendek, procurasse o embaixador da América Setentrional
em Paris, Thomas Jefferson, para discutir um possível
apoio daquela jovem nação à luta
pela independência de parte da América
portuguesa, que se articulava em Minas Gerais e no Rio
de Janeiro. Delfim matriculou-se em 1786 na Universidade
de Montpellier, mas deve ter retornado ao Rio de Janeiro,
pois há o registro de que embarcou na nau Conceição
e São José rumo a Lisboa a 8 de julho
de 1788 (ANRJ, Avulsos do Rio de Janeiro, caixa 141,
doc. 61).
Em
1792, Delfim iria dar com os costados na Ilha de Moçambique
e, em 1797, receberia a carta-patente de tenente-coronel
do terço da infantaria auxiliar, cargo vago no
ano de 1793 por morte de Alexandre Roberto Mascarenhas,
sogro de Tomás Antônio Gonzaga.
Filho
do comerciante carioca Antônio Delfim Silva, Eleutério
seria bem recebido pela elite negreira da capitania,
especialmente por brasileiros que já haviam estabelecido
casas comerciais na ilha para negociar escravatura.
Foi a partir da chegada de Delfim, coincidência
ou não, que teve início em larga escala
o tráfico de escravos da contra-costa africana
para o Rio de Janeiro e Montevidéu. Tudo controlado
pelo capital mercantil carioca, que se tornaria o principal
sustentáculo da monarquia lusa em solo brasileiro.
Já
Francisco Álvaro da Silva Freire, depois de perseguido
em Portugal e no Rio de Janeiro, acusado de maçom,
em 1802, obteria proteção da elite negreira
de Moçambique e até um emprego no governo
local. De forma surpreendente, a partir de 1804, acabaria
por se transformar em agente secreto do príncipe
regente em Paris, tal como Guezzi em Buenos Aires.
Delfim
e Silva Freire não aparecem no livro de Oliveira
Lima, mas por aqui se vê que há ainda muitos
fios soltos que precisam ser atados para que se tenha
um conhecimento mais aprofundado do que foi esse relacionamento
dos grandes traficantes negreiros de Moçambique,
ao final do século 18 e começo do 19,
com os ministros do príncipe regente, cuja aproximação
se dava pela sociabilidade maçônica.
D.
JOÃO VI NO BRASIL, de Oliveira Lima, 4ª
ed. / Rio de Janeiro: Topbooks, 790 págs., R$
69, 2006.
*
Adelto Gonçalves é doutor em Literatura
Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor
de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro,
Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa,
Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil,
2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho,
2003).
E-mail:
adelto@unisanta.br
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