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Politicamente Corretíssimos
por DiegoCasagrande.com.br
em 22/08/2003
A
Topbooks Editora está lançando Politicamente Corretíssimos,
de Ipojuca Pontes, uma soma de ensaios e artigos sobre
política, economia, arte e cultura, em que o jornalista,
cineasta e ex-secretário Nacional da Cultura manifesta
pontos de vistas originais sobre idéias, fatos e personalidades
da vida nacional e internacional. Na discussão das idéias
e no questionamento de juízos, o livro trata de assuntos
os mais diversos, que vão desde a abordagem da moralidade
e do pensamento pouco original de Marx, passando pelo
levantamento das raízes do terrorismo ocidental moderno,
até chegar à dissecação do Estado mecenas e sua fauna
cultural e a análise da desencontrada alma brasileira.
Ao todo, são 50 textos selecionados e de leitura fácil
e abrangente.
O
autor, jornalista e cineasta desde os primórdios dos
anos 60, tem larga soma de experiência na vida política
e cultural brasileira, que se inicia na cobertura como
repórter de jornal do fogo revolucionário das Ligas
Camponesas de Francisco Julião, em Pernambuco e na Paraíba
(onde nasceu), e se projeta com a realização do documentário
“Os Homens do Caranguejo”, primeiro filme brasileiro
sobre o ciclo da fome nas áreas ribeirinhas do Nordeste
(consagrado por seis láureas nacionais e internacionais)
e culmina com curta e polêmica passagem pela Secretaria
de Cultura Nacional, onde tentou, sozinho, modificar
os vínculos estabelecidos pela ditadura militar e a
Nova República de José Sarney entre órgãos da cultura
oficial e uma elite cultural viciada nas benesses extraídas
dos cofres públicos e subtraídas, a muque, do bolso
dos trabalhadores e dos empresários.
Ao
longo dos anos Ipojuca Pontes escreveu quatro livros
(“Cultura e Desenvolvimento”, “Cinema Cativo”, “Brasil
Filmes S/A” e o roteiro de “Pedro Mico”) e compartilhou,
como produtor executivo, da montagem de peças teatrais
(“Um Edifício Chamado 200”, “O Homem de La Mancha”,
“Um Bonde Chamado Desejo”, “Encontro no Supermercado”),
além de dirigir “Os Emigrados”, de Mrozek, distinguida
com o prêmio Molière de melhor interpretação e que participou,
no campo teatral, do processo de anistia em curso no
final dos anos 70. No cinema, além de escrever inúmeros
roteiros e argumentos, produziu e dirigiu cerca de dez
filmes, de ficção e documentário (entre outros, “Os
Homens do Caran-guejo”, “Canudos”, “Poética Popular”,
“Cidades Históricas”, “Rendeiras do Nordeste”, “Portrait
of Vaquero”, “A Volta do Filho Pródigo” e “Pedro Mico”),
conquistando mais de trinta prêmios nacionais e internacionais.
O
filósofo Olavo de Carvalho saúda Politicamente Corretíssimos
como uma “mistura de ensino e divertimento que, segundo
Horácio, caracteriza a boa obra literária”. O jornalista
e ex-deputado socialista Sebastião Nery ressalta que,
no livro, “Ipojuca Pontes dá uma lição de coragem, audácia,
desafio. Sobretudo, enfrenta, com a segurança de que
leu tudo dele e sobre ele, o maior mito do século –
que é Marx e o marxismo”. O escritor José Alberto Gueiros
realça a sua condição de “obra que se contrapõe às numerosas
tentativas radicais de se instituir no Brasil uma era
de pensamento único”. E o poeta e editorialista do Jornal
da Tarde, José Nêumanne Pinto, acha que o livro é atualíssimo
e tem muito a ensinar: “Quem quiser ler e aprender”
– diz – “pode fazê-lo neste livro. Bom proveito!”.
Embora
se considere um cristão manso e humilde de coração,
Ipojuca é tido pelos amigos e inimigos como um ser imprevisível,
embora não se lhe negue acentuada dose de coragem. Só
para fixar sua breve convivência com o poder, na posse
de Collor, recusou ser apresentado a Fidel Castro pelo
diplomata Ítalo Zappa, alegando, como justificativa,
diante do ditador, que não podia apertar a mão do convidado,
visto que “em Cuba as relações culturais são carcerárias”.
E ao renunciar o posto de Secretário Nacional de Cultura,
com status ministerial, enviou carta ao presidente eleito
(depois de vê-lo preservar nos cargos chaves do governo
os quadros funcionais estatizantes da esquerda festiva
e da ditadura militar), prevendo, um ano e meio antes,
o “irrecorrível impeachment”, pois, segundo entendia,
“seus adversários políticos e ideológicos não são amadores
ou apenas provincianos deslumbrados, têm largas décadas
de experiência na conspiração e na luta sem quartel
pela tomada do poder e, agindo dentro da própria máquina
governamental, não vão abrir mão de derrubá-lo”.
Leia
abaixo entrevista com o autor:
Por
que o sr. resolveu lançar este Politicamente Corretíssimos?
Descobri que os textos guardavam entre si uma unidade
surpreendente e, o que era estimulante, questionavam
temas e fatos atualíssimos no contexto nacional e internacional.
Por exemplo: no exame do recrudescimento do terrorismo
no seio do estado moderno, antes do dia 11 setembro
em Nova Iorque, e na expansão de sua prática sistemática
no ocidente a partir da divulgação do “Catecismo Revolucionário”,
de Serguei Netchaiev, adotado fielmente por Lênin, Fidel
e Marighella nas suas escaramuças revolucionárias, e
que, salvo exceção, só os profissionais do terror conhecem.
No
caso da flexível ética marxista, hoje bastante em voga,
faço levantamento acurado em “Sobre a moralidade de
Marx” da conduta e os métodos utilizados por Karl Marx,
o pai do “socialismo cientifico”, junto a amigos, familiares
e adversários em geral, que nos leva à explicação possível
da criminosa moralidade adotada por tipos como Lênin,
Stalin, Fidel Castro e Pol Pot. No estudo denominado
“Marx e o Pensamento dos Outros”, analiso de forma didática
como Marx chegou ao conceito do Materialismo Histórico,
que julgo sumamente oportuno e esclarecedor, visto que
no Brasil o marxismo, ainda que retardatário, predomina
de modo absoluto como “práxis” acadêmica.
O
Sr. trata de modo impertinente a questão do estado no
Brasil. Faz sentido discutir o “papel do estado”?
A questão do estado no Brasil é um caso de polícia.
A nossa frágil democracia, no momento, vem sendo encaminhada,
muito manhosamente, em cima do mito da “participação”,
da supremacia do público em detrimento do privado. O
modelo, delineado por Rousseau, é de origem grega e
conciliava democracia com escravidão, ou, na melhor
das hipóteses, uma democracia de poucos. Tudo isso nos
leva à Gramsci, o fanático teórico comunista italiano,
com sua “revolução passiva”, em que o estado torna-se
instrumento do “Partido Hegemônico”, e este é elevado
à categoria do Grande Pensador e Agente da transformação
revolucionária. Na leva do Estado “participativo”, apanágio
de corporações e conselhos na eterna busca do “consenso”,
são estabelecidos amplos privilégios às legiões de burocratas,
corporações e castas disfarçadas que usufruem diuturnamente
das isenções fiscais, isonomias, empréstimos a fundo
perdido, salários mirabolantes e aposentadorias milionárias.
A malta de Brasília está se apropriando hoje de cerca
de 40% do que a sociedade produz (o PIB, algo em torno
de R$ 1 trilhão e 90 bilhões), torrando tudo com a própria
máquina e seus programas quase que integralmente inúteis.
Como o governo toma a poupança privada, empresários
e forças produtivas não têm recursos para investir nos
seus negócios e indústrias, e, por extensão, não se
cria emprego, valor agregado nem muito menos o desenvolvimento
científico e tecnológico. Não é de estranhar que a miséria
e a violência se alastrem em proporção geométrica na
medida em que o estado, com sua burocracia e legiões
de privilegiados, volta-se para à “inclusão social”
e o combate à fome. É um massacre. Afonso Arinos, o
nosso grande mestre, dizia que o Brasil, antes de ser
nação, era “império”, mas não um império do tipo romano,
mas “império interno”, o governo colonizando o próprio
povo. Qual é a dúvida?
Mas
existe outro tipo de democracia?
Claro, a democracia constitucionalmente representativa
dos ingleses e dos americanos, por exemplo, onde o individuo
limita o estado - e não o estado o indivíduo, como ocorre
no Brasil e no grosso da América Latina (o Chile parece
que está escapando do carma). O objetivo das democracias
que deram certo não é a soberania do estado, especialmente
intervencionista, mas a segurança do privado e a vigência
das liberdades individuais. Só quando se respeitam as
liberdades privadas e individuais a sociedade cresce
econômica e politicamente. É respeitando a ação e a
eficiência da livre empresa e tosando as garras das
corporações e a voracidade da máquina estatal que a
sociedade prospera. Fora disso a democracia desanda
em manhosa usurpação escravocrata, ainda que acobertada
por adjetivação tipo “democracia direta”, “participativa”
ou “pluralista”. No Brasil atual, o estado tornou-se
patrimônio de uma gigantesca oligarquia burocrática
que usufrui (por força da violência legal e da ignorância
da população) de forma genérica de quase toda riqueza
produzida pela sociedade. De fato, sobra uma “baba”
para as corporações e as castas de serviço que coonestam
o sistema. Mas o povão, o velho povão – este só trabalha
e paga impostos. Seria bom lembrar a Lula que a falência
das repúblicas socialistas e das democracias populares
(que não eram democracias nem populares), ocorreu quando
caiu o mito das transformações revolucionárias e as
idéias de liberdade e justiça foram congeladas em burocracia
- o reinado tirano da “nomenklatura”.
O
Sr. tem consciência de que sua passagem pela Secretaria
Nacional de Cultura é vista como negativa por certa
camada da nossa vida artística e do show bizz?
Não só de certa camada da vida artística e do show bizz,
mas da burocracia também. Na breve temporada que passei
em Brasília, fui ameaçado e vilipendiado dia e noite
pela fauna da nomenklatura. O
que a ditadura militar e o hiper-inflacionário (e estróina)
governo da Nova Republica levaram anos para criar e
expropriar dos trabalhadores e do cidadão contribuinte,
ajudei a desmontar em menos de seis meses. Se você disser
a um “semi-Deus” da vida artística que, ao usufruir
os milhões de reais dos cofres públicos e manter status
de beautiful people, é ele também um “cruel” representante
das “elites” que despreza, simplesmente ficará chocado
e sua reação será a de, no mínimo, cuspir na sua cara.
Mas o fato é que o sujeito que tem acesso anual aos
milhões ou centenas de milhares de reais da Petrobrás,
jamais vai aceitar que o escorchante preço do transporte
coletivo ou do bujão de gás que a massa escravizada
paga é também um pesado ônus que o seu privilégio de
“artista escolhido” impõe. Essa gente, para mim, é inconsciente
ou hipócrita, e não tem a menor diferença da “elite
exploradora” que diz desprezar. De fato, o governo Collor
racionalizou administrativamente a máquina burocrática
no âmbito da cultura e fechou a Embrafilme, reconhecido
instrumento de corrupção e privilégios. Como eu era
do ramo e não tinha medo, ajudei a fazer o que mandava
minha consciência de democrata. Agora estão acusando
o “oriental” Gushiken, secretário de Lula, de ser uma
nova versão de Jdanov, criador do realismo socialista
e do antiamericanismo como forma sistemática de atuação
cultural. É provável que seja. Mas o que foi Nelson
Pereira dos Santos, um dos atuais mentores da escala-da
estatizante do cinema, senão um religioso divulgador
do Djanovismo no Brasil? O fato é que, com a estatização
do cinema – assunto que abordo em Politicamente Corretíssimos
– a Petrobrás terá mesmo, como vem fazendo, de financiar
a fundo perdido a produção, exibição e até financiar
a ida do espectador ao cinema – financiamento, óbvio,
distribuído politicamente pela Petrobrás, via preço
(e lucro) escorchante do combustível e do bujão de gás
arrancado do bolso da patuléia ignara. Mas seria bom
avisar a Lula que Gorbachev, face à fome de 45 milhões
de russos, fechou as torneiras da Goskino (comitê de
cinema comunista) na extinta URSS e o próprio Fidel,
a quem admira, limitou os recursos para a produção cinematográfica
em Cuba, hoje circunscrita a três filmes anuais. Na
Rússia, hoje, quem quiser milhões de dólares para fazer
filme, pode fazê-lo. Mas terá de sacar do próprio bolso.
Mas quem terá coragem de dizer isso a Lula, visto que
Lula não é Collor?
O
que o Sr. acha que vai ocorrer com o lançamento de seu
Politicamente Corretíssimos no atual estágio da vida
brasileira?
Acho que desabará uma total cortina de silêncio sobre
o livro, ou, por outro lado, haverá manifestações criticas
de ódio e rancor. As duas coisas não me preocupam. Tenho
o lombo grosso e já não sofro com o criminosamente adverso,
como no passado. Mas que será amplamente lido, mais
cedo ou mais tarde, não tenho o menor receio.
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