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Depoimento do editor José Mario
Pereira, da Topbooks,
sobre Roberto Campos e a feitura do seu livro de memórias
O
primeiro livro de Roberto Campos que publiquei foi "O
século esquisito", uma antologia de artigos
e ensaios. Saiu em 1990, às vésperas das
eleições. Na mesma ocasião lancei
"Moscou, Freiburg e Brasília", ensaios
do prof. Delfim Netto, e "O tom desafinado"
de César Maia. A Topbooks nasceu, pois, com a
publicação de três economistas em
campanha eleitoral. De Delfim Netto fiz, mais tarde,
outro livro, e de Roberto Campos foram ao todo cinco
títulos, entre eles este livro de memórias,
que saiu em 1994.
"A
lanterna na popa" foi quase todo escrito nos finais
de semana. Dr. Roberto, então senador, chegava
ao Rio, de Brasília, na quinta-feira à
tarde. D. Neide, a fiel secretária de mais de
30 anos, me avisava, e então eu levava para ele
o que eu já tinha revisto e o material que havia
pesquisado em jornais e revistas, e que, me parecia,
ele podia aproveitar nesses capítulos que deixara
comigo para revisão no final da semana anterior.
Nesse compasso, o livro foi se avolumando e tornou-se
o que é: obra definitiva para a compreensão
do Brasil moderno.
O
livro crescia a cada semana, mas nunca me passou pela
cabeça inibir o autor com observações
sobre seu tamanho, nem impor limite ao número
de páginas. Deixei-o escrever, acrescentar, reescrever.
Na última hora, quando já estava indo
para a impressão, o dr. Roberto pensou em eliminar
o Apêndice, preocupado em reduzir o tamanho do
livro. Mas advoguei o contrário, puxando de uma
de suas estantes o primeiro volume das memórias
de Henry Kissinger, 'The White House Years", com
mais de 1.500 páginas. "Dr. Roberto, eis
aqui um ilustre precedente". Ele concordou. Eu
tinha a intuição de que estava assistindo
à gestação de um grande livro.
Quando
comecei a trabalhar com ele, tive a preocupação
de consultar todos os livros importantes, principalmente
os de memórias e depoimentos. Qualquer referência
a Roberto Campos que eu encontrasse num desses livros
mostrava a ele. Às vezes ele olhava e dizia:
"Isso não tem importância". Outras
vezes lia com atenção, em seguida sentava
a uma mesa, no fundo do escritório de sua casa,
e começava a escrever. Sempre à mão,
com lápis e borracha, em bloco de papel pautado.
Eu achava engraçado aquilo, parecia coisa de
garoto em idade escolar. Quando não gostava do
que havia escrito, apagava. A mesa ficava cheia daquela
farinha da borracha.
Outras
vezes, não tendo onde escrever, ele começava
a escrevinhar o seu artigo do fim de semana nos espaços
em branco do livro que estava lendo. E muitas vezes
à caneta. Principalmente durante os vôos
de ida e volta para Brasília. Uma vez lhe emprestei
um livro que tinha acabado de comprar. Semanas depois
encontrei esse livro na casa dele todo anotado. Ele
tinha escrito quase todo um artigo no livro. Preferi
comprar outro exemplar e deixar aquele com ele. Quase
todos os livros dele eram riscados e anotados.
Roberto
Campos, além de economista brilhante, respeitado
internacionalmente, era um escritor. Na Sessão
da Saudade na Academia Brasileira de Letras, o Carlos
Heitor Cony disse que o modelo de "A lanterna na
popa" eram as "Memórias" do francês
Chateaubriand. Não creio nisso, nunca vi essa
obra na biblioteca do dr. Roberto. Não significa
que ele não a tenha lido, mas ela não
fazia parte das suas leituras de cabeceira a ponto de
tê-lo influenciado na arquitetura do seu livro
de memórias. De qualquer modo, o fato de uma
pessoa com a experiência de Carlos Heitor Cony
ter visto em "A lanterna na popa" a influência
das "Memórias" de Chateaubriand revela
que o livro de Roberto Campos é obra de escritor
com domínio invulgar da língua - não
somente um economista que, a certa altura da vida, resolveu
escrever memórias.
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