| Joaquim
Nabuco e os abolicionistas britânicos (Correspondência
1880-1905)
Publicado
na Revista de História da Biblioteca
Nacional, seção Livros, abril de 2009
“No
meu quinto ano no Recife (...) eu traduzia documentos
do Anti-Slavery Reporter para meu pai”. Isso conta
Joaquim Nabuco em Minha Formação.
Então, pelo menos desde 1870 ele costumava ler
o jornal da British and Foreign Anti-Slavery Society
(BFASS), pioneira e mais importante associação
antiescravista do século XIX. Mas somente na
década seguinte o interesse veio conformar uma
ação política. Já deputado,
Nabuco se espelhou na organização inglesa
para fundar, em 1880, a Sociedade Brasileira Contra
a Escravidão. A BFASS acolheu a congênere
e ficou meio de madrinha. A conversa começara
pouco antes, por iniciativa inglesa. A BFASS endossou
a investida de Nabuco contra a companhia britânica
que mantinha ilegalmente escravos no Brasil.
Daí em diante, a correspondência se prolongou
por 25 anos. Essas cartas velhas remetem o leitor, hoje
imerso em e-mails fugazes, a um tempo em que se elaboravam
cuidadosamente as missivas. Elas registram as relações
pessoais que davam corpo às articulações
políticas, uma espécie de cozinha do movimento
abolicionista. “São migalhas da história,
mas as migalhas devem ser recolhidas”, diria mais
tarde (A semana, 11/8/1895) Machado de Assis.
Esse amigo de Nabuco também lhe escreveu muitas
cartas, recentemente reeditadas, com alentada introdução,
por José Murilo de Carvalho [Machado de Assis
& Joaquim Nabuco / Correspondência, Topbooks,
2003].
O mesmo que agora, em companhia de Leslie Bethell, traz
a público as cartas trocadas entre Nabuco e o
pessoal da BFASS. Os dois notáveis historiadores
fizeram edição bilíngue e caprichada,
que suplanta em muito a primeira coletânea, organizada
pelo filho mais moço de Nabuco, José Thomaz
(Cartas aos abolicionistas ingleses, Fundação
Joaquim Nabuco, 1985). Incluíram cartas de Nabuco
e de outros membros do movimento abolicionista brasileiro
para a BFASS e redigiram notas que facultam ao leitor
pouco familiarizado com a época e seus personagens
acompanhar a viva conversação que se desenrola.
A introdução encorpada dá notícia
de tema ainda pouco explorado entre os “nabucólogos”:
o vínculo de Nabuco com os abolicionistas ingleses,
no auge da mobilização antiescravista
no Brasil.
Bem no meio da campanha, derrotado nas eleições
parlamentares, Nabuco foi ser correspondente do Jornal
do Comércio em Londres. Prosseguiu no ativismo
à distância, escrevendo o maior libelo
brasileiro contra a escravidão: O Abolicionismo
(1883). Acompanhou de perto as estratégias de
persuasão da sociedade civil e de pressão
sobre o Parlamento dos abolicionistas ingleses, e as
pôs em prática no Brasil, quando voltou.
A conexão serviu ainda para reverberar o abolicionismo
brasileiro e a resistência escravista junto à
opinião pública europeia. Em Londres,
Nabuco participava das reuniões da BFASS e se
afeiçoou a Charles Allen. Espelhava-se em sua
liderança de duas décadas à frente
da BFASS. Allen, por sua vez, encorajava o talento e
a perseverança do “senhor Nabuco”.
As cartas mostram que a BFASS foi a porta de entrada
de Nabuco em uma rede abolicionista europeia, cujos
tentáculos transpunham o oceano, abarcando os
antiescravistas norte-americanos. Nabuco se enfronhou
nessa teia, não só como reforço
de seu objetivo caseiro, mas em apoio às ações
pelo fim da escravidão na África. Em mais
de uma centena de cartas, a coletânea dá
noção desse abolicionismo sem fronteiras
de Nabuco. Mas sempre com os olhos voltados para o Brasil,
onde aportou para virar a estrela da campanha que culminou
com o fim da escravidão em 1888. Foi quando Allen
festejou seu “coração de leão”.
Ângela
Alonso é professora da Universidade de São
Paulo
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