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Publicado na coluna de Sebastião Nery, Tribuna
da Imprensa, 10/04/07
50
anos de Brasil
Virgilio
de Mello Franco, Adauto Cardoso, Austregésilo
de Athayde e Rafael Correia de Oliveira estavam presos
no quartel da Polícia Militar da Rua Frei Caneca,
no Rio, no fim de 1943, por terem lançado o "Manifesto
dos Mineiros" (24 de outubro de 1943) contra a
ditadura Vargas. Afonso Arinos precisava passar uma
mensagem para o irmão, incomunicável,
proibido de receber visitas. Mandou Afonso Arinos, filho,
então com 13 anos. Foi entrando, ninguém
o interpelou, encontrou o tio numa cela, com os outros.
Chegou um soldado e informou a Virgilio que o chefe
da Polícia Federal estava de visita ao quartel
e queria sua presença.
Respondeu:
"Diga ao chefe da Polícia que, se eu for
vê-lo, será para enfiar-lhe a mão
na cara e mandá-lo à puta que o pariu".
O chefe da Polícia dispensou a conversa. Em 48,
mataram Virgilio.
Lacerda
e Arinos
Telegrama
de Carlos Lacerda, governador da Guanabara pela UDN,
a Afonso Arinos, senador da UDN pela Guanabara, porque
Arinos apoiou a posse de João Goulart na presidência,
depois da renúncia de Jânio Quadros:
"Não
penso viajar no momento, como lhe parece. Em todo caso,
nunca antes de ver pela última vez a cara da
vaidade mórbida que leva um tipo à traição
e à ignomínia – Carlos Lacerda".
Telegrama de Afonso Arinos a Carlos Lacerda, respondendo
na hora:
"Não
fiz qualquer referência a sua pessoa, de quem
não me lembro há muito tempo. Aliás,
viagens seriam inúteis, pois, embora sempre fujão,
você nunca poderá fugir de si mesmo e este
é o seu castigo – Afonso Arinos".
Dois rapazes elegantes.
Nelson
e Helio
Nelson
Rodrigues telefonou para a casa de Oto Lara Rezende,
na Gávea, no Rio, na manhã de 11 de novembro
de 55, quando os generais Lott e Denys puseram as tropas
na rua e derrubaram Carlos Luz, presidente da Câmara
que havia assumido a presidência da República
enquanto Café Filho se internara em hospital,
numa jogada para impedirem a posse de JK, eleito.
Quem
atendeu o telefone foi Helio Pelegrino, amigo de Otto
e Nelson. Helio começou a xingar os "generais
golpistas". Nelson lhe recomendou prudência,
pois falava da casa do genro de um político influente
(deputado Israel Pinheiro, do PSD de Minas) e o telefone
bem poderia estar censurado.
Helio
começou a desafiar o censor imaginário,
dando seu nome, profissão e endereço.
Nelson emendou: "Isso mesmo, Helio! A gente deve
assumir as próprias opiniões e enfrentar
as conseqüências. Eu tambem arrosto qualquer
ameaça, senhor censor! Me chamo Djalma de Souza,
moro na Rua do Riachuelo!"
Vinicius
e Helenice
Vinicius
de Morais, "sempre em lua-de-mel", no começo
dos anos 50, sentava-se na mesma sala do Itamaraty,
no Rio, em que também era diplomata o jovem e
solteiro Afonso Arinos, filho. Saíam juntos do
trabalho para a peregrinação pelos bares
de Copacabana. Mas antes passavam pela redação
da "Última Hora", onde Vinicius deixava
sua crônica diária. Lá, recebia
pilhas de cartas. Arinos perguntou ao amigo se era tudo
repercussão da coluna.
-
"Flan", semanário da "Última
Hora", tem um Consultório Sentimental.
-
Eu sei. Assinado por Helenice.
-
Helenice sou eu. Esse monte de cartas se deve ao fato
de Helenice ter anunciado uma receita infalível
contra a queda dos cabelos.
Anos
Dourados
Essas
histórias, e dezenas de outras, estão
em um livro-documento imperdível, que o escritor,
acadêmico e embaixador aposentado Afonso Arinos,
filho lançou na semana passada na Academia Brasileira
de Letras: "Mirante" (Topbooks).
É
uma galeria primorosa, corajosa, às vezes dolorosa,
de perfis que começam nos Anos Dourados no Rio
de Janeiro, e testemunham sua convivência com
alguns dos mais influentes personagens da política,
da cultura e da religião no Brasil e no mundo,
no último meio século: de Vinicius de
Morais a Celso Furtado, de Dom Helder Câmara a
Bento XVI.
Estão
lá, de corpo e alma inteiros, entre tantos, o
pai Afonso Arinos, o tio Virgilio de Melo Franco, Getulio
Vargas, Osvaldo Aranha, Fidel Castro, George Bernanos,
Carlos Lacerda, João Cabral, Antonio Maria; os
quatro mineiros do Apocalipse: Otto Lara, Helio Pelegrino,
Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino; Manuel Bandeira,
Murilo Mendes, Afrânio Coutinho, Guimarães
Rosa, Pedro Nava, Carlos Drummond, Rubem Braga, Carlos
Castelo Branco, San Tiago Dantas, Sergio Buarque de
Holanda, Evandro Lins.
Itamaraty
No
Itamaraty se diz que nascer Rio Branco é um ato
administrativo perfeito. Melo Franco também,
desde o Império: o bisavô Virgilio, o avô
Afrânio, o pai Afonso, os tios Virgilio e Caio,
ele embaixador na Bolívia, Venezuela, Holanda
e Vaticano. A principal parte do livro é a análise
brilhante, forte, sobre a política externa do
País, a partir da virada para uma "política
independente", comandada por Afonso Arinos no governo
Jânio.
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