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A sombra do meio-dia
Roberto
Pompeu de Toledo
A
sombra do meio-dia é o belo título de um romance
lançado recentemente (TOPBOOKS), de autoria do diplomata
Sérgio Danese. O livro trata da glória (efêmera) e da
desgraça (duradoura) de um ghost-writer, ou redator-fantasma
- aquele que escreve discursos para os outros. A glória
do ghost-writer de Danese adveio do dinheiro
e da ascensão profissional e social que lhe proporcionaram
os serviços prestados ao patrão - um ricaço feito senador
e ministro, ilimitado nas ambições e limitado nos escrúpulos
como soem ser as figuras de sua laia. A desgraça, da
sufocação de seu talento literário, ou daquilo que gostaria
que fosse talento literário, posto a serviço de outrem,
e ainda mais um outrem como aquele. As exigências do
patrão, aos poucos, tornam-se acachapantes. Não são
apenas discursos que ele encomenda. É uma carta de amor
a uma bela que deseja como amante. Ou um conto, com
que acrescentar, às delícias do dinheiro e do poder,
a glória literária. Nosso escritor de aluguel vai se
exaurindo. É a própria personalidade que lhe vai sendo
sugada pelo insaciável senhorio. Na forma de palavras,
frases e parágrafos, é a alma que põe em continuada
venda.
Mas
deixemos o enredo do livro. O que interessa é o título,
um achado, na elegância da forma e na precisão. Ao meio-dia
a luz é tão forte que faz as sombras fugirem para debaixo
dos pés. As sombras como que mergulham para dentro da
terra, fogem, anulam-se. Acabam por condenar-se à não-existência.
"Sombra do meio-dia" chega a ser uma contradição em
termos. Não existem sombras nessa hora. O meio-dia expulsa-as
da face da Terra com sua ferocidade despótica.
A
imagem serve à perfeição à figura do ghost-writer
do livro - mas, registre-se, não a todo ghost-writer.
Lembremos daquele que é o mais célebre texto atribuído
a um presidente do Brasil, a carta-testamento de Getúlio
Vargas. A carta-testamento ("Saio da vida para entrar
na história") é um primor de texto certo na hora certa.
Debite-se ao gênio político de Getúlio o fato de ter
achado que devia enfeitar seu suicídio, e potencializar
seus efeitos, com o recurso de uma peça literária. Mas
o texto, de ressonâncias shakespearianas, não é seu.
É do jornalista José Soares Maciel Filho. Esse Maciel
foi figura destacada na corte getulista. Ocupou os cargos
de superintendente do BNDE (antecessor do BNDES) e da
Sumoc (Superintendência da Moeda e do Crédito, antecessora
do Banco Central). Sua glória, porém, advém do ofício
de ghost-writer. Ele é lembrado até hoje, e continuará
lembrado por muito tempo, como o autor da carta-testamento.
Com esse texto, que fez sob encomenda, e deu para outro
assinar, saiu da obscuridade para entrar na história.
Maciel Filho é um célebre ghost-writer, outra
contradição em termos. Ele é um redator de aluguel que
se libertou da condição de sombra do meio-dia.
Mas
também não é isso o que interessa. Libertemo-nos, por
nossa vez, da figura do ghost-writer, Não é apenas
a ele que se ajusta a inspirada imagem de Sérgio Danese.
Todo aquele que serve a um outro tem potencial para
se tomar sombra do meio-dia. E - eis um ponto significativo
- nem todos sofrem com isso. Há pessoas cuja vocação
de servir chega a fazer com que se sintam tanto mais
recompensadas quanto mais se anulam. No romance Os
Maias, de Eça de Queiroz, o Vilaça, administrador
dos negócios do patriarca Afonso da Maia, morre proferindo,
como últimas palavras: "Levem minhas recomendações ao
patrão". Que extraordinário exemplo de sombra do meio-dia!
O Vilaça, na hora entre todas solene, dramática e definitiva
de morrer, muito ao contrário de burilar algo com ressonâncias
shakespearianas, quis que o patrão soubesse que tinha
nele o pensamento. Até diante do terror, ou do mistério
da morte, ele se anulava, em favor daquele a quem, a
vida inteira, serviu.
Ainda
não é esse o ponto. O que se espera numa revista de
informação são referências à última das atualidades,
então vá lá. Não é despropositado considerar que, no
caso do escândalo que ora abala o governo, fator determinante
foi a falta de calibragem de seus dois principais personagens
à condição de sombra. O ministro José Dirceu excedeu
de muito a condição de auxiliar do presidente para expor-se
como um sol, no firmamento do ministério. Eis um pecado
que nesta hora amarga assanha tanto os inimigos externos
quanto os rivais internos, e duplica-lhe o sofrimento.
O assessor Waldomiro Diniz, o sub do sub, por seu lado,
parecia, até outro dia, talhado à perfeição ao papel
de sombra do meio-dia. Todo o poder lhe vinha do chefe
e em nome dele o exercia. Fora os íntimos, não se sabia
sequer de sua existência. Verificou-se, no entanto,
que usava a sombra na qual com tanto gosto se instalara
para fins escusos. Para ele, a sombra do meio-dia era
um valhacouto. Waldomiro demonstrou que a imagem, se
serve para os humildes como o Vilaça, e os humilhados
como o personagem do livro de Sérgio Danese, pode também
ser posta a serviço dos gatunos. Publicado na revista
Veja em 3 de março de 2004.
VEJA
03/03/2004
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