| Publicado
nas Páginas Amarelas da revista VEJA,
20 de março de 1996
Bruno
Tolentino
Quero
o país de volta
O
poeta que passou trinta anos na Europa se diz horrorizado
com o baixo nível, acha que o país regrediu
e parte para a briga
Geraldo
Mayrink
Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca
de família aristocrática, gosta de dizer
que é de um tempo em que rico não roubava.
O avô foi conselheiro do Império e fundador
da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais,
como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio
Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara
Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido,
o crítico literário. Ainda era analfabeto
em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau
e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês
e inglês dentro de casa. Tolentino saiu do Brasil
em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores
genealógicas de origem erudita. Orgulha-se de
ter filhos com mulheres descendentes do filósofo
Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais
novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra,
onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é
filho da francesa Martine, neta do poeta René
Char. Bruno publicou livros de poesia em inglês
e francês. Em 1994, lançou no Brasil "As
horas de Katharina", e no fim do ano passado mais
dois, "Os Deuses de Hoje" e "Os Sapos
de Ontem" - todos ignorados pela crítica,
pelo público e pelos curiosos.
Aos
56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem
feito força para tornar-se herdeiro do embaixador
José Guilherme Merquior, intelectual de boa formação
e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou
com os poetas concretos, depois com o que considera
máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua
turma. Em seguida, com os críticos literários
e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa
entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás.
Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex
e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês
W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett
e Giuseppe Ungaretti. Horrorizado com a possibilidade
de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam
as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis,
abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua
pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:
VEJA - Por que tantas brigas ao mesmo tempo?
TOLENTINO - Para ver se o pessoal cai em si e muda de
mentalidade. O Brasil é um país vital
que está caindo aos pedaços. Não
quero sair outra vez da minha terra, mas não
posso ficar aqui sem minha família, que está
na França. Não posso educar filho em escola
daqui.
VEJA
- Por que não?
TOLENTINO - Foi minha mulher quem disse não.
Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última
flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e
sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela
nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe
espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula
tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões,
Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano.
O menino seria levado a acreditar que é tudo
a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França
e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que
seu cérebro tem três partes. Mas não
aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show
business.
VEJA
- Qual o problema?
TOLENTINO - Minha mulher já havia se conformado
com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas
ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar
o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse
estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido
sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro
Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino,
não se desentorta mais. Jamais educaria um filho
meu numa escola ou universidade brasileira.
VEJA
- Não é levar Caetano Veloso a sério
demais? Ele não é só um tema de
currículo, entre tantos outros?
TOLENTINO - Não. Ele está também
virando tese de professores universitários. Tenho
aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie
de guia para mongolóides, e a mesma editora desse
livro me pede para escrever um outro, sob o título
Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos
nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano
é o showbiz. Por mais poético que seja,
é entretenimento. E entretenimento não
é cultura.
VEJA
- O que você tem contra a música popular?
TOLENTINO - Se fizerem um show com todas as músicas
de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto
dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei
a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura
e muito menos de alta cultura. Gosto da música
popular brasileira e também da de outros países,
mas a música popular não se confunde com
a erudita. Então, como é que letra de
música vai se confundir com poesia?
VEJA
- O senhor não está ressentido por ele
ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre
uma tradução do poeta Augusto de Campos?
No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer
à custa deles.
TOLENTINO - Não tenho ressentimento nem ciúme.
Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você
vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo
que pode fazer é ir lá apartar. Foi o
que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só
que assinou um cheque em branco. A princípio
achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício
da dúvida, sobre uma questão muito delicada
de tradução e de cultura que ele não
está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal
Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos
Campos não sabem inglês, imagine eles.
VEJA
- Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos
não sabem inglês?
TOLENTINO - Não sabem inglês, nem alemão,
nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke
e criaram a frase "ele tem um pássaro",
que é literal, mas que em alemão quer
dizer que alguém tem uma telha a menos, é
meio doido. São péssimos poetas e péssimos
escritores. Não sabem absolutamente nada do que
alardeiam saber.
VEJA
- Por que só o senhor, e não outros críticos,
diz essas coisas?
TOLENTINO - Na República das Letras ainda estamos
à espera das diretas já. A usurpação
do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados
nas patotas literárias que desde então
controlam a entrada em circulação, ou
a exclusão pelo silêncio, de livros, autores,
obras inteiras. Nas redações dos jornais
como nas universidades prevalece a censura, e o único
critério para sancionar uma obra parece ser o
bom comportamento do neófito, sua genuflexão
aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se
matando o diálogo, o debate e a polêmica.
Mascarados de universitários, esses anõezinhos
conseguem dar a impressão de que a inteligência
nacional encolheu, que em Lilliput só se sabe
da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de
Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e
é nosso maior poeta desde João Cabral?
São dele estas palavras: "Viver, simplesmente
viver, meu cão faz isso muito bem". Mas
José Miguel Wisnik ora é crítico,
ora é letrista e compositor, portanto é
catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas
cátedras e Fernando Pessoa virou afluente da
MPB. Não é à toa que até
em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que
provocava gargalhada logo à primeira frase: "Um
intelectual brasileiro ia começar a ler Camões
quando a banda passou e..." É preciso perguntar
dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar
de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?
VEJA
- Por que o senhor acha os críticos brasileiros
ruins?
TOLENTINO - O que os críticos disseram sobre
meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente,
que minha poesia é arcaizante e não suficientemente
progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e -
como é mesmo o nome do marido da Fernandinha
Torres? - o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas
porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam
a atenção para a pessoa e não para
a obra. E toda pessoa é discutível. Eu
sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia
é interessante, meio cinematográfica,
e assim é como se eu não tivesse escrito
nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras.
VEJA
- Mas o que aconteceu com os críticos para que
se tornassem tão incapazes, na sua opinião?
TOLENTINO - A crítica brasileira não existe
mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua
independência por cátedras e verbas. É
uma gente venal, vendida, que controla as nomeações
para as cátedras, bolsas e verbas. Vão
se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz
a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio
Candido, que é um geriatra nato.
VEJA
- Caramba... Não sobra nenhum crítico
brasileiro?
TOLENTINO - Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que
não tem lá muito gosto poético,
mas enfim...
VEJA
- O senhor também não sobra?
TOLENTINO - Em vários sentidos. Não tenho
onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da
combatividade crítica de José Guilherme
Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos
idéias convergentes embora nem sempre coincidentes.
Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro
de alívio entre nossos crititicos e poetômanos.
Infelizmente ele era embaixador. Eu não sou embaixador
de nada. Essa gente está morta de medo de que
eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser
celebrado lá fora. Não faço falta
lá, há muitos outros como eu. Aqui, com
esta independência, cultura, erudição
e combatividade, não tem outro que nem eu.
VEJA
- Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta?
TOLENTINO - Minha obra poética está basicamente
terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e
não conheço nenhum outro poeta, além
de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem
além dessa média. A partir daí,
decai. Estou transferindo o meu esforço para
o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura
causou ao país me parece cada vez mais um sintoma
do que uma causa. É um sintoma do Febeapá,
vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia.
A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de
respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade.
A verdade foi substituída pela verossimilhança,
a literatura, pela imitação da literatura.
VEJA
- O senhor poderia dar exemplos disso?
TOLENTINO - Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia,
ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares
eram imitações da literatura. Auden, o
Drummond lá dos ingleses, também dizia
algo parecido. A gente lia um cara e concluía
que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que
ele era muito bom. "Faz a melhor imitação
de poesia que já li", dizia. Parecia piada
mas não era.
VEJA
- O senhor acha que a imitação é
ruim?
TOLENTINO - A imitação da literatura se
dá quando se fecha no círculo de ferro
na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca
efeito imediato, como se tudo começasse por você,
naquele momento. A verdadeira literatura está
sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de
Machado, contém toda a novelística russa,
e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade
e mordacidade que os romances de Chico são uma
reedição do nouveau roman, que já
morreu. Agora morreu a última representante dele,
Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau
roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí
correndo. Chato existe em todo lugar, não só
no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação
do Jô. É uma coisa que não pretende
ser mais do que aquilo mesmo, divertir.
VEJA
- Por que o senhor não vai ensinar o que sabe
nas universidades?
TOLENTINO - Só entro numa universidade disfarçado
de cachorro, ou levado por uma escolta de estudantes.
Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão
me convidar para nada porque eu quero acabar com os
empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por
todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma
coisa.
VEJA
- Então as universidades não servem para
nada?
TOLENTINO - A escola pública desapareceu. A fórmula
de sobrevivência do país é a trilogia
emprego público, de preferência com aposentadoria
acumulada, condomínio fechado e plano de saúde.
Esse é o apartheid construído por uma
elite analfabeta e totalmente irresponsável que
entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe
média, que tem dinheiro para gastar em boates
e shows e sair de lá gargarejando cultura.
VEJA - O senhor tem acompanhado a produção
intelectual das universidades brasileiras?
TOLENTINO
- O departamento de filosofia da Universidade de São
Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por
inépcia ou preguiça, mas por um estranho
espírito de renúncia parecido ao espírito
de porco. Cultivavam a crença de que só
poderia nascer uma filosofia no Brasil "ao término
de um infindável aprendizado de técnicas
intelectuais criteriosamente importadas", como
diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar
era macaquear os debates dos "grandes centros"
produtores de cultura filosófica. O que significava
tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição
do valor e da importância do pensamento local.
Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira
de uma independência prematura, o que os maîtres
à penser da USP fizeram foi apenas incentivar
a prática generalizada do aborto filosófico
preventivo. Não espanta que, por quatro décadas,
o "rigor" (com aspas) uspiano não produziu
outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia
que poderia ter sido o que não foi.
VEJA
- Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro
de filosofia, Apresentação do Mundo, que
foi muito elogiado...
TOLENTINO - É, ele escreveu um besteirol sobre
Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias
páginas como marco do nascimento da filosofia
no Brasil. É uma audácia depois de Mário
Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da
Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia
nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso,
teológico, que eu não vou citar porque
sou católico e vão dizer que estou puxando
a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco
meses garimpando nas páginas daquele livro e
não encontrei nada que não fosse uma leitura
do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística
de compreender a realidade. Isso a gente já sabe,
a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia
nacional não tem nada a ver com isso.
VEJA
- Tem a ver com o quê?
TOLENTINO - A cultura filosófica brasileira é
quase nula. Nossos professores gastaram décadas
lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá
o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está
a grande tradição escolástica que
vai de Aristóteles a Husserl? Isso não
é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia
brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não
se formaram em lugar algum, não perderam tempo
com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas
línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade
com latim, grego ou alemão, é para eles
que telefono.
VEJA
- O senhor não está exagerando, sendo
duro demais?
TOLENTINO - Não. Não passei nenhum dia
aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente.
Quando cheguei à Europa, não tive nenhum
complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci
em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço
parte do patriciado brasileiro. E não via diferença
entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua.
Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo
na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci
Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia
gente dessa categoria.
VEJA
- Dá a impressão de que só agora
se começou a falar e a escrever besteira no país...
TOLENTINO - O besteirol, se havia, estava lá
longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem
razões mercadológicas, de dinheiro. Os
artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir
gastar em Miami. Só não é possível
que esses senhores usurpem a posição do
intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão
a Everest.
VEJA
- Não é bom para o país ter um
intelectual na Presidência da República?
TOLENTINO - Votei no Fernando Henrique Cardoso porque
era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa,
de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua
primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis
ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano.
Uma coisa tão espantosa quanto se Rui Barbosa,
caso tivesse ganho a eleição, citasse
Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual
me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade
intelectual, mesmo sendo uma província. Não
estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou
a inteligência brasileira. Quero meu país
de volta.
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