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Coluna do crítico Wilson Martins, no Prosa & Verso de
O Globo, em 26.06.1999
EDITORAS
E EDITORES
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grandes editores distinguem-se das editoras puramente
comerciais por exercerem uma missão civilizadora. Como,
em nossos dias, os conglomerados econômicos gigantes,
em busca de diversificação, adquiriram praticamente
todas as editoras tradicionais, na Europa e nos Estados
Unidos (conservando-lhes as denominações consagradas
numa operação dúbia destinada a beneficiarem-se com
o respectivo prestígio, ao mesmo tempo em que ludibriam
deliberadamente o público), tornou-se necessário, e
é o que proponho, introduzir no vocabulário da profissão
uma diferença semântica entre "editor" e "editora",
separando-se e quase opondo, de um lado, o editor propriamente
dito (o que sabe avaliar a qualidade, e não apenas a
vendabilidade do que publica), tradição que se iniciou
na Europa renascentista, e, de outro lado, as empresas
que se dedicam à fabricação de livros. Discriminação
semelhante deve ser feita entre livreiros e vendedores
de livros.
Com
a Renascença, assinalei alhures, a tipografia se transformou
simultaneamente em uma tarefa humanística e em uma tarefa
artística, reunindo, dessa forma, os dois caracteres
essenciais do movimento, sendo não somente o seu incomparável
instrumento de divulgação e de vitória, mas também uma
das suas encarnações mais típicas. Quem dizia "Impressor"
no século XVI, escrevia Paul Dupont, "dizia ao mesmo
tempo um homem instruído, um erudito mesmo, sempre consciencioso
e honesto, tendo apenas uma paixão, a da ciência, um
desejo, o de uma nobre ilustração, um medo, o de se
ver ultrapassar em talentos e glória".
Daí
surgiram as grandes dinastias de tipógrafos e as dinastias
dos grandes tipógrafos, como Aldo Manucio, por exemplo,
cuja oficina era, ao mesmo tempo, uma academia de eruditos
que trabalhavam, se não sob suas ordens, pelo menos
sob a sua orientação. Para dar idéia dos seus escrúpulos,
basta lembrar que na edição de Platão, em 1513, ele
afirmava, no prefácio, estar disposto a pagar um escudo
de ouro para cada erro que nela se encontrasse (v. W.
M., "A palavra escrita", segunda parte, cap. 8: "Os
grandes tipógrafos").
Quatro
séculos depois, já não há tipógrafos no mundo da edição
e se, nos grandes centros, os livros saem geralmente
sem erros de composição, isso se deve, antes de mais
nada e pelos mesmos motivos, a razões de ordem econômica,
dado o alto custo acarretado pelas correções em tempo
de trabalho. Em nosso caso, a missão civilizadora foi
exercida por editores paradigmátícos, cada um à sua
maneira e no momento em que trabalharam, podendo?se
dizer que estiveram tão integrados em cada um deles
quanto os escritores que publicavam.
É
impossível imaginar a edição brasileira do século XIX
omitindo a figura e as atividades de B. L. Garnier,
tão ligado a Machado de Assis quanto o próprio Machado
estava ligado à literatura. Não era o único, claro está:
o "Almanaque Garnier" para 1914 enumerou os autores
publicados pela "Casa", como, no século XX, José Olympio
gostava de se referir à sua própria: Aluísio Azevedo,
Alberto de Oliveira, Mello Morais Filho, Joaquim Nabuco,
José Veríssimo, Lúcio de Mendonça, Artur Azevedo, Alfredo
Varela, Nestor Vítor, Medeiros e Albuquerque, Olavo
Bilac, Afonso Celso, Visconde de Taunay, Sílvio Romero
para referir os mais notáveis.
Entre
Garnier e José Olympio, o lugar de honra foi ocupado
por Monteiro Lobato, sobre quem é desnecessário insistir
e que se qualíficava a si mesmo como "um editor revolucionário",
cujo destino tragicamente irônico foi malograr quando
montou uma oficina para tornar?se fabricante de livros.
Do que, aliás, muito se orgulhava. A crítica tendenciosa
dos modernistas, à beira da má?fé pura e simples, configurou?o
como "inimigo" da nova literatura, embora lhe devesse
a publicação de numerosos dos jovens turcos.
Se
Lobato foi o editor dos anos 20 e José Olympio o dos
anos 30 (cuja "Casa" sobreviveu ao seu momento de glória),
os anos 60 seriam de Ênio Silveira e seu irreprimível
tropismo político, além, bem entendido, da tradução
do "Ulysses", mera curiosidade bibliográfica, mas, de
qualquer maneira, uma data histórica. Entrávamos, entretanto,
no período das traduções comerciais, boas e más, tanto
nelas mesmas quanto nos autores traduzidos, período
em que as "editoras" predominaram sobre os "editores".
Nos
anos 90, José Mário Pereira restabeleceu a tradição
editorial no sentido nobre da palavra. Não veio para
suceder aos nomes do passado, mas para substituí-los.
Além das edições originais, suas reedições restituíram
clássicos desaparecidos, como Oliveira Lima e Joaquim
Nabuco, pelo exemplo das recuperações eruditas e escrupulosas.
Com isso, a editora Topbooks propõe uma lição de dignidade
profissional, mais uma vez confirmada nos "Panfletos
satíricos", de Jonathan Swift (tradução de Leonardo
Fróes) e na famosa "Areopagítica", de John Milton, traduzida
por Raul de Sá Barbosa.
É
uma "defesa total" da liberdade de imprensa, como ele
mesmo a qualificava. Total? Felipe Fortuna escreve no
excelente prefácio que ele "se opunha à censura prévia.
mas nada tinha contra a censura posterior de qualquer
publicação", o que é ainda pior: rio primeiro caso,
impede?se o aparecimento do texto; no segundo, pune?se
o autor com a maior, severidade. Como todo mundo, John
Milton era contra a censura que o censurasse, mas a
favor da que censurasse os seus adversários ideológicos.
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