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CATÁLOGO JOSÉ OLYMPIO - PREMIAÇÃO ABL - DISCURSOS
 
 
 
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DISCURSO DO SR. JOSÉ PASTORE

Prêmio José Ermírio de Moraes a José Mario Pereira
Academia Brasileira de Letras, 25 de junho de 2009.

Cumprimentos à mesa, ao Autor e ao público.

Meu contato mais profundo com José Olympio veio por meio de Fernando de Azevedo, Florestan Fernandes, Sergio Buarque de Holanda, Lourival Gomes Machado e Fernando Henrique Cardoso. Foram meus primeiros professores de sociologia e de ciência política. Faziam parte das leituras obrigatórias Gilberto Freyre, Antonio Candido, Oliveira Vianna, Euclydes da Cunha e o próprio Sergio, nas Raízes do Brasil. Quem estava no pé das capas desses livros? Livraria José Olympio Editora.

Convivi anos a fio com todos eles mesmo porque, tornando-me professor de sociologia, passei a indicá-los para meus alunos. Antes disso, porém, por recomendação de meu pai, que foi professor de português, frequentei assiduamente as páginas de Machado de Assis, José Lins do Rego, Graciliano, Guimarães Rosa, Mario de Andrade, Oswald de Andrade, e o mais lido de todos, Humberto de Campos – para citar alguns apenas. Quem estava no pé das capas? José Olympio.

Mais tarde aprendi a saborear as ideias de Josué Montelo, Ariano, Clarice, Drumond, Vinicius e Lygia Fagundes Telles, tão querida nesta Casa, e com quem tenho o prazer de conviver na Academia Paulista de Letras. Quem estava no pé das capas? José Olympio.

Enfim, qualquer brasileiro que tenha entrado numa livraria, viu, em abundancia, e em todas as áreas do saber, as produções de José Olympio - um dos homens que mais ajudaram a construir, preservar e consolidar a cultura no Brasil. Por isso, fiquei feliz ao ser convidado pela família de José Ermírio de Moraes para aqui testemunhar a justa homenagem que é prestada a José Mario Pereira. Lembrei-me de bons tempos de minha vida.

Se José Olympio foi o civilizador do Brasil, José Mario é o apóstolo da gratidão, ao reunir numa preciosa obra de arte, as várias formas de agradecimento que todos os brasileiros desejariam enviar ao Olimpo de José Olympio. José Olympio – O editor e sua Casa é um monumento de pesquisa rigorosa envolta no mais fino trabalho gráfico. José Mario deu ao Brasil um duplo presente: um denso conteúdo e uma superior expressão de beleza.

Trago aqui os mais sinceros cumprimentos da família de José Ermírio de Moraes a José Mario Pereira, registrando que este livro magistral haverá de sinalizar aos futuros candidatos o padrão estabelecido pela Casa de Machado. Nem podia ser diferente.

Trago ainda, de maneira muito especial, o caloroso aplauso do Dr. Antônio Ermírio de Moraes, que tem todo o interesse em apoiar projetos que valorizam a cultura e a educação no Brasil. Ele sente não poder estar nesta cerimônia, mas envia um grande abraço a todos os integrantes da Academia Brasileira de Letras, cumprimentando-os por tão judiciosa escolha.

Muito obrigado.

José Pastore

DISCURSO DO ACADÊMICO ANTONIO CARLOS SECCHIN

Discurso de saudação a José Mario Pereira, ganhador, com o livro José Olympio: O editor e sua Casa, do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes - 2009, proferido pelo acadêmico Antonio Carlos Secchin, em sessão pública da Academia Brasileira de Letras, no dia 25 de junho de 2009.

Um prêmio, um livro, um autor-editor

Um prêmio

O sempre lembrado empresário e senador pernambucano José Ermírio de Moraes – que, numa enquete promovida pela revista IstoÉ, situou-se entre os três mais votados como o “brasileiro do século” na categoria “empreendedor” – honra atualmente, com seu nome, um diploma e um prêmio. O diploma, aprovado pelo Senado Federal em julho de 2008, é reservado a personalidade de destaque no setor industrial. O prêmio, atribuído por esta Academia desde 1995, elege obra que represente “efetiva contribuição à cultura brasileira”.

Em 2009, a Comissão, presidida pelo acadêmico Eduardo Portella, com relatoria do acadêmico Domício Proença Filho, e integrada pelos acadêmicos Hélio Jaguaribe, João de Scantimburgo e Tarcísio Padilha, indicou para premiação, com inteira justiça, José Olympio – O editor e sua Casa, de José Mario Pereira, numa publicação da Sextante Artes. Tal indicação foi acatada por unanimidade em reunião plenária da ABL.

Desde 1995, importantes títulos das artes e do pensamento brasileiros foram contemplados; o primeiro deles, A lanterna na popa, da autoria do futuro acadêmico Roberto Campos, foi publicado exatamente pela Topbooks, de José Mario Pereira, o vencedor de hoje.

Coincidentemente, três outros ganhadores do Prêmio José Ermírio de Moraes também integram o catálogo dessa editora: Evaldo Cabral de Melo, Wilson Martins e Bruno Tolentino. Autores como Décio de Almeida Prado, o futuro acadêmico Cícero Sandroni e Laura Sandroni, Gofredo Telles Junior, Luiz Felipe de Alencastro, Manif Zacarias, Antônio Bulhões, José Nêumanne Pinto e Maria Lucia Pallares-Burke constituem um referencial, ao longo do tempo, do nível de excelência dos livros premiados.

Um livro

A primorosa edição de José Olympio – O editor e sua Casa é o resultado de seis anos de amorosa dedicação – diria quase obsessão – de José Mario Pereira, no sentido de perpetuar a memória de um dos mais importantes editores-livreiros do país. Saudado no lançamento por entusiásticas resenhas de críticos como Felipe Fortuna e Wilson Martins, além de haver merecido artigos elogiosos dos acadêmicos Ivan Junqueira e Marcos Vilaça, o livro, mais do que simplesmente traçar um perfil de José Olympio, examina sua editora como pólo de convergência da intelectualidade brasileira num percurso de quase meio século, a partir de 1931 até o ano de 1975, deixando como legado um total de quase 4 mil publicações, das quais 1743 de autores brasileiros.

Escreve Ivan Junqueira que, se José Olympio foi o inventor da profissão de editor, José Mario é, desde já, o reinventor de José Olympio. Salienta Marcos Vilaça que na obra se encontra a política, a história literária, a indústria editorial, a evolução gráfica e a memória fotográfica do Brasil. Felipe Fortuna destaca o papel da Casa na consolidação de nosso modernismo. Wilson Martins enfatiza a “magistral pesquisa de José Mario Pereira, ele próprio editor da mesma família espiritual [de José Olympio]”.

Não me aterei à superlativa dimensão do editor porque provavelmente o autor premiado o fará em seu discurso. No livro em si, constatamos que nada do processo editorial escapou da argúcia investigativa de José Mario, desde, é claro, a seleção de autores, nacionais e estrangeiros, até a arte da capa e das ilustrações, registrando-se ainda questões como técnicas de exposição e de vendas de livros, contratos, noites de autógrafo, tiragens comerciais e tiragens especiais, relações editor/editados expressas em cartas e dedicatórias. Documentos até então inéditos desvendam os meandros do poder político e literário, com toda a carga de ambiguidade que essas duas artes – a política e a literatura – comportam e às vezes reciprocamente cultivam.

É de se destacar, também, a parte final do volume, que enfeixa uma série de depoimentos e artigos nunca antes reunidos em livro, compondo um retrato multifacetado do editor, elaborado por mais de trinta textos de escritores que com ele privaram. Registremos ainda a inteligente e funcional divisão do volume em capítulos que abrigam os grandes segmentos de publicação da Casa, tais como a literatura moderna no Brasil, a literatura estrangeira, a série dos Documentos Brasileiros, o ensaio literário, o memorialismo, as grandes coleções e a literatura infantil e juvenil. Copiosa iconografia ilustra todos os capítulos, repletos de verbetes que funcionam como uma espécie de enciclopédia informal da cultura brasileira, uma vez que as legendas que acompanham cada reprodução de capa – e são centenas – correspondem, a rigor, a míni-ensaios críticos e certeiros sobre as obras e os autores em questão.

Sob qualquer ângulo que se examine o livro – seja sob o aspecto gráfico, conceitual, ou informativo – a conclusão é que se trata de obra de referência, que eleva a novo patamar o nível das publicações acerca da edição do livro em nosso país.

Um autor-editor

Em José Mario Pereira convivem o leitor, o autor e o editor.

O leitor obsessivo, de uma sede de saber inesgotável, dono de vasta e multiforme cultura, em domínios que vão do enxadrismo às mais complexas formulações filosóficas, abarcando ainda a literatura brasileira e universal de hoje e do passado, a história, a religião, a política, a antropologia, a sociologia, a música, as artes plásticas.

O autor que não transforma sua grande erudição em obstáculo intransponível ao leitor; ao contrário, produz textos fluentes e de clara argumentação, embasados na melhor e mais atualizada bibliografia, o que ocasiona constantes rombos no orçamento doméstico, suportados com estoicismo por Christine Ajuz, a esposa com quem há 25 anos José Mario troca afetos e ideias. Escreveu dezenas de artigos publicados na imprensa, e mais de 500 textos disseminados em prefácios e orelhas nas Casas onde atuou – a Nova Fronteira, a Imago, a própria Topbooks.

O editor a serviço da cultura, e que desde os primórdios da Topbooks, em 1990, investe em gêneros pouco rentáveis, como a poesia e o ensaísmo, brindando-nos com a produção de Franklin de Oliveira, Otto Maria Carpeaux, José Paulo Paes, Adriano Espínola, Per Johns, Luiz Costa Lima, Felipe Fortuna, Weydson Barros Leal, Élvia Bezerra, Marcus Accioly, Mary del Priore e Maria José de Queiroz, entre outros. O editor que devolveu às estantes do país a obra de Manuel Bomfim e títulos há muito esgotados de Joaquim Nabuco, José Veríssimo, Oliveira Lima e Gilberto Freyre; que nos enriqueceu com a Areopagítica, de John Milton, os Panfletos satíricos, de Swift, a Lírica, de Dante, a Jerusalém libertada, de Torquato Tasso. Para compor seu elenco de tradutores, dirigiu-se a nomes do porte de Marco Lucchesi, Pedro Lyra, Jorge Wanderley, Ivo Barroso e Leonardo Fróes. Entre seus mais de 300 títulos publicados, constam várias obras premiadas por esta Academia, em diversos gêneros. Para não tornar fastidiosa a enumeração, citarei apenas a recente atribuição do Prêmio de Ensaios a Machado, Rosa & Cia, de José Maurício Gomes de Almeida. José Mario é um estrategista: num ousado investimento, logrou transformar em best-seller o memorialismo de Roberto Campos, com mais de cem mil exemplares vendidos. Não se incomoda, todavia, em fornecer livros para a lista dos menos vendidos, desde que tal lista seja integrada por obras de mérito literário ou relevância cultural.

É sempre tentador estabelecer aproximações entre biógrafo e biografado, no caso entre José e José. As semelhanças são por demais ostensivas. Se eu me referisse a um importante editor nascido no século XX fora do Rio de Janeiro, mas aqui radicado desde jovem, inimigo do sectarismo ideológico, e que publicou dezenas de acadêmicos, de qual deles estaria falando? De ambos, que até no nome se irmanam: um é José Pereira, Mario; o outro igualmente é José Pereira, Olympio.

Nomes afins, idêntica vocação. Apesar das diferenças, os dois são tão próximos que, ao ler as palavras com as quais José Mario caracterizou a missão de José Olympio – empreender uma ação civilizatória por meio de uma editora construída “com engenho, suor e intuição ímpar” –, de pronto percebemos que essas palavras, do mesmo modo, também definiriam o trabalho de José Mario: engenho, suor e intuição ímpar. A conjugação dos três fatores o levou a consolidar sua própria editora. Agora, na condição de autor, ele nos brinda com uma grande homenagem, na figura-símbolo de José Olympio, a todos os protagonistas da fascinante aventura do livro no Brasil.

Parabéns, leitor, autor e editor José Mario Pereira.

Antonio Carlos Secchin

DISCURSO DE JOSÉ MARIO PEREIRA

Discurso de recepção do Prêmio Senador José Ermírio de Moraes, na Academia Brasileira de Letras, em 25 de junho de 2009

Sr. Presidente da Academia Brasileira de Letras, Cícero Sandroni;
Sr. Secretário-Geral, Ivan Junqueira;
Sr. José Pastore, representante da família do senador José Ermírio de Moraes e do grupo Votorantim;
Senhores acadêmicos; senhoras e senhores.

Aqui estou para agradecer à Academia Brasileira de Letras e à Votorantim o prêmio que decidiram, generosamente, conceder a um pequeno editor pelo gesto de resgatar um pouco da admirável história de um grande editor. Sou especialmente grato aos integrantes da comissão julgadora pela indicação ao Prêmio Senador José Ermírio de Moraes do livro que escrevi sobre José Olympio e sua editora. Agradeço também aos acadêmicos que, por unanimidade, validaram o parecer da ilustre comissão.

Receber da Academia este prêmio me comove, entre outras razões, pelo fato de ter sido esta a Casa onde fiz os primeiros amigos no Rio de Janeiro, no já distante novembro de 1974. Atrevo-me a dizer que a minha pesquisa sobre José Olympio começou aqui quando, aos 16 anos, pelas mãos de Aurélio Buarque de Holanda, tive acesso à rica biblioteca desta instituição, cujo diretor na época, Barbosa Lima Sobrinho, ao perceber o quanto eu gostava de ler, fez um gesto pelo qual serei sempre grato: assinou documento me autorizando a pegar emprestado tudo que desejasse daquelas estantes a que só os acadêmicos tinham livre acesso.

Quero agora recordar Aurélio Buarque de Holanda, não o dicionarista, mas o homem afetuoso e bom. Uma semana depois de chegar de férias à cidade, com o pouco dinheiro que trazia, comprei na Feira do Livro do Largo do Machado um exemplar do Dicionário Aurélio, que acabara de ser publicado, e rumei para esta casa de cultura, na intenção de me entrevistar com ele. Abordei-o na entrada do Petit Trianon, em busca apenas de uma conversa e de um autógrafo, pois em breve teria de voltar para o Ceará, e mestre Aurélio se mostrou afável e acolhedor.

A certa altura, me convidou para conhecer a biblioteca, e então subimos ao segundo andar deste prédio, onde ele não só me mostrou o grande salão, e alguns livros de nossa literatura que considerava essenciais à formação de um estudante, mas também me apresentou às pessoas que ali trabalhavam. Talvez para atenuar o impacto provocado pela exuberância da biblioteca – que viria a ser para mim fonte de pesquisa inestimável, um dos esteios da minha vida de editor – convidou-me para o chá, e naquela mesma tarde fiz camaradagem com Hermes Lima, um dos espíritos mais nobres que já passaram por esta Casa.

Minha primeira amizade intelectual no Rio de Janeiro foi, portanto, o Dr. Aurélio, como sempre o chamei. Pouco tempo depois, ele me convidou a conhecer o escritório onde continuava, com sua equipe, a aperfeiçoar o Dicionário, um apartamento no térreo de um edifício na Praia de Botafogo, que passei a frequentar quase diariamente durante três semanas, ao fim das quais deveria retornar ao Ceará. Próximo à data da partida, fui me despedir; deu-me alguns livros e lamentou que eu estivesse voltando, pois havia pensado em me convidar para trabalhar com ele. Pedi-lhe algumas horas para poder falar com meus pais, que autorizaram minha permanência no Rio, onde passei a morar com uma tia.

No escritório eu entrava às 8 da manhã e saía ao meio-dia, trabalhando como datilógrafo, revisor e office-boy. Grande parte dos livros do Dr. Aurélio estava naquele apartamento, e quando, algum tempo depois, ele me deu a chave, comecei a passar ali o meu tempo livre. Saído de Quixadá, onde já tinha lido quase todos os títulos disponíveis na pequena biblioteca local, vi-me de uma hora para outra com acesso às bibliotecas da ABL e do Dr. Aurélio – o qual era, além de tudo, excelente professor. Imaginem o alumbramento que isso representou para o adolescente recém-chegado do interior do Ceará...

O Dr. Aurélio era homem sem vaidades, a ponto de uma vez, diante de pergunta minha sobre literatura estrangeira, surpreender-me com o comentário, seguido de um pedido: “Sou homem de cultura limitada, e você é muito perguntador; então vai me fazer um favor. Uma das pessoas com quem mais aprendi dará conferência hoje, na Aliança Francesa de Botafogo. Não posso comparecer, e gostaria que se apresentasse a ele como amigo meu. Você vai gostar muito de conhecer o Paulo Rónai”. Aceitei de imediato a missão, e à noite, bem antes da hora, me coloquei à porta da Aliança Francesa, na Rua Muniz Barreto. Fiquei atento até identificar o conferencista que chegava em companhia da filha mais nova, a flautista Laura.

“Dr. Paulo Rónai, estou aqui a pedido do Dr. Aurélio, que não pôde vir, mas lhe enviou um abraço”, disse. Ele me olhou curioso, perguntou o meu nome, e então me abraçou e foi me levando para o local onde falaria sobre tradução. A partir daquele dia, passei a frequentar também o apartamento da Rua Décio Villares, no Bairro Peixoto, e aprendi muito com o Dr. Paulo. Na primeira vez que fui à sua casa, ele me fez uma série de perguntas e me propôs um programa de leitura. Sempre que eu voltava para devolver um livro, era sabatinado e, em seguida, ele me emprestava outro. Foi assim que, em mais ou menos dois anos, fiz um curso intensivo de literatura universal que muito me ajudou a editar, mais tarde, autores como John Milton, Dante Alighieri, Torquato Tasso e Jonathan Swift.

Logo depois me tornei amigo do escritor e memorialista Antonio Carlos Villaça. Dono de prodigiosa memória, que lhe permitia não só analisar obras literárias quanto dissertar sobre a vida pública e privada dos escritores brasileiros de seu tempo, foi ele quem me levou pela primeira vez ao editor José Olympio, em princípios de 1975. Na sede da editora, na Rua Marquês de Olinda, pude conviver com escritores da dimensão de Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz, Herman Lima, e nem de longe imaginava que um dia seria convocado por meu amigo Marcos Pereira, neto do editor, a escrever um livro sobre José Olympio e a sua Casa. Publicado em junho de 2008 pela Sextante, dos irmãos Marcos e Tomás da Veiga Pereira, o livro, para minha alegria, veio a merecer a honra de ser agraciado com o prêmio que a Academia Brasileira de Letras, por delegação da Votorantim, me entrega hoje, nesta sessão comemorativa dos 170 anos do nascimento de Machado de Assis.

*****

Este importante prêmio leva o nome de um grande brasileiro. Nascido em Nazaré da Mata, sertão de Pernambuco, em 21 de janeiro de 1900, José Ermírio de Morais, empresário de larga visão, foi um dos precursores no campo da assistência social: já em 1938, introduzia, na Votorantim, o sistema de aquisição da casa própria para os funcionários mediante adiantamentos salariais. Em 1945, deu início às atividades de sua Companhia Brasileira de Alumínio, que passou a produzir essa matéria-prima até então importada. Em 1962, candidatou-se ao Senado, por Pernambuco, na legenda do Partido Trabalhista Nacional em coligação com o PTB, além de financiar a campanha de Miguel Arraes ao governo do Estado. Ambos se elegeram.

Ministro da Agricultura de João Goulart, em maio de 1965 foi eleito presidente do diretório nacional do PTB, onde ficou até outubro daquele ano, quando o Ato Institucional no 2 extinguiu os partidos políticos. Com o surgimento do bipartidarismo, filiou-se ao MDB, do qual foi o primeiro tesoureiro geral. Ao morrer, em 9 de agosto de 1973, a Votorantim, fundada em 1918, já era uma das maiores empresas do país, com destacada atuação em vários ramos da indústria, entre eles o da siderurgia, da metalurgia, da produção de cimento, papel e celulose. Sua rica biografia, escrita pelo acadêmico João de Scantimburgo, saiu em 1975.

Vale lembrar que o idealizador deste prêmio foi seu filho, José Ermírio, imediatamente apoiado pelo irmão Antonio Ermírio – iniciativa louvável, que deveria ser imitada por outros empresários brasileiros. Ao instituir o Prêmio Senador José Ermírio de Morais, a Votorantim teve por objetivo não só louvar a memória do responsável pela consolidação da empresa como estimular a pesquisa e a produção de textos de relevância cultural sobre temas nacionais.

*****

E chego agora a José Olympio Pereira Filho, sobre quem muito já se escreveu e ainda se escreverá, pois sua ação civilizatória deixou marcas profundas na história cultural do país. Nascido em 1902, na cidade de Batatais, interior de São Paulo, começou a trabalhar aos 15 anos na Casa Garraux, onde aprendeu a conhecer e a amar os livros. Cordial, generoso, grande conversador, J. O., como era chamado, publicou – entre 1931, quando fundou a editora, e 1990, ano de sua morte – 4.850 edições, das quais 1.743 de autores brasileiros.

Em 1934, a Livraria José Olympio Editora se mudou para o Rio de Janeiro, instalando-se na Rua do Ouvidor, 110, endereço que fez história pela qualidade de seus frequentadores e dos eventos que lá se realizaram. A partir daquele momento, J. O. empreendeu uma revolução sem paralelo no nosso mercado editorial. Homem vocacionado para as grandes amizades, editou indistintamente autores novos e consagrados: integralistas como Plínio Salgado, Gustavo Barroso e Miguel Reale; autoritários como Azevedo Amaral e Francisco Campos; liberais como Afonso Arinos e Wilson Martins; socialistas de feição democrática como Antonio Candido; comunistas como Jorge Amado e Graciliano Ramos.

Foi também pelas mãos de J.O. que Getúlio Vargas lançou 18 volumes de discursos e conferências. Católicos como Alceu Amoroso Lima e intelectuais que perderam a fé como Anísio Teixeira e Álvaro Lins também encontraram na Casa seu porto seguro. O Romance de 30, com José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Graciliano e José Américo de Almeida, ganhou repercussão nacional com o selo da editora, assim como a poesia de Cassiano Ricardo, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Mauro Motta e Lêdo Ivo. E não há notícia de veto ideológico do editor a nenhum autor, pois o que lhe importava era a excelência literária.

A relação de José Olympio com a Casa de Machado de Assis é singular. Já nos primeiros anos de sua atividade, editou escritores e ensaístas da ABL. Gustavo Barroso com os contos de A ronda dos séculos e Humberto de Campos com as crônicas de Os párias estrearam em 1933, e o memorialista Rodrigo Octavio e Alfredo Pujol, biógrafo de Machado de Assis, no ano seguinte. Porém, quem mais o ajudou a firmar seu negócio foi Humberto de Campos, o qual, encantado pelo dinamismo do jovem editor, transferiu para a Casa todos os seus livros, que à época desfrutavam da estima dos leitores e vendiam aos milhares.

J.O. acompanhava tudo o que se passava na Academia, de tal modo que muitas candidaturas vitoriosas nasceram no seu gabinete da Praça 15, e mais tarde no de Botafogo. Dos mais de 400 autores nacionais que publicou, 78 pertenceram à ABL. Ainda assim, ele veio pouco ao Petit Trianon: em 16 de novembro de 1967, esteve na posse do amigo e editado Guimarães Rosa, e voltou em 6 de junho de 1972, quando o romancista Octávio de Faria assumiu a cadeira número 27; este considerou o fato tão significativo que, já no dia seguinte à festa, enviou-lhe um livro com dedicatória na qual agradecia o gesto.

Geralmente se qualifica José Olympio como o grande editor da literatura brasileira, mas na verdade apostou num amplo leque de assuntos: livros didáticos, jurídicos, religiosos, obras hoje identificadas como de auto-ajuda, os best-sellers da época, enciclopédias, dicionários, livros de culinária – encontra-se de tudo no catálogo da editora. Publicou também o melhor da literatura estrangeira: Dickens, Baudelaire, Renan, Melville, Rousseau, Goethe, Tolstoi, Rilke, Hawthorne, Albert Camus e Saint-Exupéry, além da obra completa, em vários volumes, de Dostoievski.

No plano nacional, entre centenas de títulos definitivos, a Casa foi responsável por uma das maiores coleções já editadas no Brasil: a “Documentos Brasileiros”, que desde a inauguração em outubro de 1936 – com Raízes do Brasil, de Sergio Buarque de Holanda – chegou a publicar mais de 200 volumes, inicialmente sob a direção de Gilberto Freyre, sucedido por Octavio Tarquínio de Souza e Afonso Arinos de Mello Franco.

J.O. foi um inovador na edição de livros no Brasil, tanto no que se refere à apresentação gráfica quanto pelos procedimentos empresariais adotados, entre eles a ousadia nas técnicas de marketing: foi o primeiro a alugar avião para sobrevoar o Rio com faixa de propaganda de suas edições. Adotou o lema de Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”, ao qual o ensaísta Eduardo Portella, que publicou seu primeiro livro na Casa, ajuntou: “Um país se faz com homens, livros e exemplos. José Olympio é um deles”.

O bom gosto de J. O. ficou patente ao reunir entre os colaboradores gente do naipe de Tomás Santa Rosa, Luis Jardim, Poty, Axel de Leskoschek, Marcello Grassmann, Antonio Bandeira, Di Cavalcanti, Oswaldo Goeldi, Candido Portinari, Cícero Dias – enfim, um time dos melhores artistas gráficos da época. Também a prática do adiantamento de direitos autorais carreou simpatia para a Casa que acabava de fundar. Dona Maria Amélia, viúva de Sérgio Buarque de Holanda, conta que o adiantamento pela publicação de Raízes do Brasil permitiu ao casal comprar a mobília de seu apartamento na mudança de São Paulo para o Rio.

A impressão que José Olympio deixou em todos que o conheceram foi a de um homem fiel aos amigos, alheio a rancores e vaidades. Sempre que eu saía do elevador no terceiro andar da sede da editora, via-o trabalhando no escritório, cercado de livros. Sua porta se mantinha aberta, e ele ali ficava por horas, silenciosamente envolvido nos afazeres e lembranças, parecendo à vontade no traje cotidiano: camisa branca e gravata preta afrouxada. De fala mansa e riso afetuoso, pesado de corpo, lento nos gestos, deixava transparecer certa melancolia no olhar. Em várias ocasiões, sem que me visse, pude observá-lo a consultar livros na estante e a fazer anotações.

Muito do que José Olympio Pereira Filho foi e fez está nesta obra, onde pretendi traçar um retrato objetivo da variedade e riqueza das publicações da editora, destacando a excelência de seu padrão gráfico. Na construção de José Olympio – O editor e sua Casa – título sugerido por minha mulher, Christine Ajuz, cuja valiosa colaboração agradeço de público –, a cada momento me surpreendia com a qualidade e a abrangência do que ele publicou.

Durante a pesquisa, feita em grande parte no depósito do Grupo Xerox, em Bonsucesso, onde se encontravam os papéis da editora antes que a família de Sérgio Henrique Gregori os fizesse chegar à Fundação Biblioteca Nacional, consultei todos os volumes publicados, além de fotos e documentos raros que registram a impressionante produção da Casa entre as décadas de 30 e 90.

Procurei fornecer ao leitor uma seleta do que se editou ali, seja na literatura nacional, seja na estrangeira, onde sua contribuição também foi notável. Ainda há muito por fazer em relação ao excepcional acervo da José Olympio, que eu espero em breve esteja integralmente à disposição do pesquisador na Biblioteca Nacional. Minha expectativa é que este livro possa servir de estímulo ao surgimento de outros sobre editores como Ênio Silveira, Alfredo Machado e Jorge Zahar.

*****

Recordamos aqui um editor num tempo em que muitos antevêem a extinção do livro. Desde o ano 2000 se vem falando das vantagens da leitura em suporte digital, e há quem chegue a preconizar o desaparecimento do livro no formato atual. Dia a dia surgem novidades tecnológicas direcionadas para a leitura, e a última delas é o Kindle. No entanto, embora enciclopédias e obras de referência cada vez mais sejam editadas eletronicamente, tudo indica que o livro impresso sobreviverá, e um dos que acreditam nisso é Umberto Eco. Ele acaba de publicar na Itália Não espere se livrar dos livros, onde defende a permanência do papel frente aos suportes digitais. A seu ver, “cabem aos editores grandes responsabilidades nesse processo, a primeira das quais é a busca da qualidade na produção dos livros”.

Aqui neste salão, belamente restaurado para a festa que ora nos reúne, ouvi alguns dos grandes conferencistas da ABL, e dialoguei com muitos acadêmicos que, em diferentes momentos da minha vida, me honraram com sua amizade e incentivo, entre eles Alceu Amoroso Lima, José Honório Rodrigues, Antonio Houaiss, José Guilherme Merquior, Darcy Ribeiro, Roberto Campos e Roberto Marinho, além dos citados anteriormente. Com a memória posta nesses amigos que já se foram, reafirmo minha fidelidade ao mandamento de São Jerônimo: “Que nunca o livro fique longe de tua mão e de teus olhos”.

Em 11 de dezembro de 1987, Ênio Silveira escreveu a José Olympio: "Você, Octalles Marcondes e Monteiro Lobato constituem o sólido tripé sobre o qual se assenta a indústria brasileira do livro. Artífice do mesmo ofício, sei do que falo, e por que falo". Na mesma carta, o destemido editor afirmava que quem publica livros pode prescindir de estátuas e monumentos, pois a prova de seus méritos permanece nas obras guardadas pelas bibliotecas, séculos afora.

“Se cheguei a ver mais longe, foi montado em ombros de gigantes”: a frase de Isaac Newton se tornou tão famosa que Robert Merton, um dos fundadores da moderna sociologia americana, dedicou um livro a rastrear suas origens. Recordo o dito do gênio inglês não só por entender que Machado de Assis pensava parecido como, também, porque este é um grande exemplo a seguir. Se quem vive no mundo das letras não pode prescindir da obra de Machado, quem é editor só tem a aprender com José Olympio.

Seguindo o sábio conselho de um editado de J. O., Winston Churchill, que recomendava brevidade em discursos comemorativos, finalizo: o livro que escrevi representa, acima de tudo, um gesto de gratidão à acolhida carinhosa que tive na Livraria José Olympio Editora, desde a primeira vez que ali entrei, há 34 anos. Lá ganhei alguns dos primeiros títulos com que viria a formar minha biblioteca, e fiz amigos entre funcionários e editados. Entendo que o honroso prêmio que a Academia Brasileira de Letras, por delegação da Votorantim, ora me entrega é, antes de tudo, uma homenagem, por meu intermédio, ao grande editor José Olympio. Se este volume contribuir, minimamente que seja, para evidenciar a minha admiração por tudo que ele fez em prol da leitura no Brasil, me darei por satisfeito.

Quero ainda destacar meu reconhecimento aos amigos bibliófilos José Mindlin e Antonio Carlos Secchin – que acaba de me emocionar com seu discurso tão generoso; aos muitos donos e funcionários de sebos cariocas que me ajudaram a localizar títulos raros; à minha secretária, Mariângela Félix; à excelente equipe responsável pela produção da obra, e aos muitos jornalistas e críticos que escreveram com entusiasmo sobre este José Olympio – O editor e sua Casa.

Agradeço, finalmente, a presença dos que aqui vieram brindar à memória do fundador da Academia, Machado de Assis, do senador José Ermírio de Moraes, de José Olympio e de todos os que fizeram a grandeza da editora que ele fundou.

Muito obrigado.

José Mario Pereira

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